Gritos contra a indiferença – Fernando Nobre (sugestão de leitura)

Fernando Nobre
Gritos contra a indiferença
Lisboa, Temas e Debates

 (Excerto)

Como não me inquietar quando vejo a paz global tão ameaçada e os Direitos Humanos tão espezinhados? Como não interpelar quando assisto à degradação contínua do nosso planeta Terra e ao seu esgotamento, provocado por uma ganância louca, sem freio nem nexo? Como não me assustar quando penso nas tragédias em curso na Palestina, no Afeganistão e no Iraque (e em breve no Irão) e assisto ao aniquilamento do Direito Internacional, impotente perante as espúrias situações de Guantánamo e dos voos da US até na minha Europa ainda democrática? Como não gritar quando ouço falar como inevitável, e sem retrocesso possível, de um confronto atómico e que penso nos milhões de mortos e de refugiados que um tal apocalipse acarretaria? Como não me questionar sobre o futuro da acção humanitária e os desafios e perversões que encontra?

 

A geopolítica do caos e da fome*

 

De regresso de várias viagens à Guiné-Bissau (via Senegal) durante o último Verão, para apoio às populações vítimas da guerra, de uma estada no Bangladesh onde a AMI está a financiar um projecto junto dos miseráveis deslocados pelas recentes inundações, de uma passagem por Nova Iorque a convite da Fundação Konrad Hilton para participar num seminário sobre «O Humanitário e o século xxI» e de uma missão humanitária nas Honduras para socorrer as vítimas do ciclone Mitch, devo confessar que concordo com o senhor Ignacio Ramonet, director do Le Monde Diplomatique: «Estamos a caminho do caos.» Ou paramos já — para escutarmos e socorrermos os gritos de desespero de três quartos da população mundial, para olhar e ver os erros cometidos nomeadamente na defesa do Homem e do meio ambiente e para pensarmos no que realmente queremos fazer do nosso mundo — ou todo este frenesim descontrolado pode levar-nos ao caos global.

Hoje, os políticos, os economistas e os financeiros estão todos ultrapassados, tentando no máximo gerir o dia-a-dia, em virtude da rapidez com que a globalização se fez e da instantaneidade com que os colossais fluxos financeiros se movimentam, desestabilizando regiões inteiras num jogo virtual especulativo, perverso e perigosíssimo para o mundo inteiro. Estamos em equilíbrio muito instável em cima de um castelo de cartas que pode ruir de repente, levando consigo toda esta aparente e falsa tranquilidade. A falência do banco Barings e os efeitos do El Niño e da El Niña já deviam ter sido suficientes, entre muitos outros sinais de alerta, para nos chamar à razão e ao bom senso!

As revoluções tecnológica (tendencialmente desumanizante), económico-financeira (um verdadeiro jogo, como no «mercado dos futuros») e social (a crise global do poder/desemprego) em curso estão a levar ao domínio total do financeiro sem rosto sobre o político, o social, o ético e o moral com todas as suas terríveis consequências. Sem querer ser o velho do Restelo, grito: «Alerta Cuidado!»

Com tanto miserável no nosso mundo, onde trezentas pessoas acumulam mais riqueza do que três biliões (50 por cento da população mundial), onde o fosso entre o Norte e o Sul nunca foi tão abissal, onde as disparidades sociais nos países ditos civilizados e desenvolvidos nunca foi tão grande, isso só pode rebentar. Quando? Não sei! Só sei que assim não vamos a parte nenhuma. É tempo de inverter a marcha funesta que nos tem conduzido. Por favor, é preciso bom senso.

Após ter estado no intervalo de um mês em Gabu, na Guiné, em Nova Iorque e na sua frenética Wall Street, em Bogra, no Bangladesh, e em Tegucigalpa, nas Honduras, sinto-me em estado de choque. Não aceito tão fantásticas disparidades: não é humanamente suportável. Não consigo conviver com isso sem gritar a minha angústia, revolta e indignação e sem tentar, convosco, fazer algo de positivo pelos sofredores, pelo nosso mundo.

Peço-vos, pois, para reagirem. À escala individual, sejamos solidários. Não à indiferença, não à intolerância, não ao caos que alguns estão a fazer a tantos, em nome de coisa nenhuma a não ser a insensatez e a cobiça. Temos, cada vez mais, de continuar juntos a nossa luta. Só ela dá sentido à vida.

 * Editorial AMI Notícias, n.º 14, Dezembro de 1998.

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