• Início
  • Histórias
  • Sugestões de leitura
  • Comentários
  • Actividades baseadas em imagens
  • Textos de reflexão

Histórias em Português

Um blog onde os Contadores d'Estórias colocam histórias de que gostam e que querem partilhar. Sirva-se e dê-lhes vida! Quer também recebê-las por email? Procura histórias sobre um algum tema ou para um fim específico? Escreva-nos! estorias.em.portugues(at)gmail.com Os nossos objectivos são meramente pedagógicos, sem qualquer interesse financeiro.

Feeds:
Posts
Comentários

Pequenos assassinos – Matt Whylman

11 por contadores.destorias

Matt Whylman
Pequenos assassinos
Porto, Campo das Letras

Por vezes as armas falam mais alto do que as palavras.
É pelo menos nisso que Sonny e Alberto acreditam. Na cidade onde vivem, parece que as únicas pessoas que merecem respeito são os traficantes de droga.
Os traficantes são ricos.
São poderosos.
Não têm medo de ninguém.
De modo que Alberto não pode deixar de ficar contente quando um dia é contratado como assassino a soldo por um traficante.
A sua família nunca mais irá ter fome. E ele vai passar a ser uma figura importante.
A vida parece ter finalmente começado.
Mas nesta violentíssima cidade da América Latina os assassinos de palmo e meio são descartáveis. E não demorará muito até que Alberto e Sonny o descubrirem.

 

O rapaz

Distrito de San Cristobal, Medellín, Colômbia — neste momento.

Minorca faz justiça à alcunha. Não consegue ver o alvo que se preparo para atingir, mas sabe que vai ser difícil apanhá-lo com um tiro na cabeça.

O motorista — um homem com um olho mortiço, conhecido apenas como Manu — espreita pelo retrovisor. Minorca está estendido lá atrás. Tem um pé no banco, mas Manu não foi contratado para lhe ensinar boas maneiras. Isso era coisa para a mãezinha dele, sempre chorosa, ou para o patrão que lhe pagava a renda, e miúdos como este ouvem-no sempre a ele primeiro. O Minorca veste jeans de cintura descaída e uma t-shirt branca, as mangas arregaçadas como uma túnica, e está a tentar fazer um ar adulto mascando pastilha elástica. A t-shirt é demasiado grande para ele. O revólver também. Manu consegue distingui-lo dentro do coldre, um 38 automático que o jovem assassino vai ter de disparar com ambas as mãos para aguentar a estocada.

Estão estacionados numa rua residencial e poeirenta, com palmeiras dos dois lados. Os troncos são escanzelados e raspados, cada um coroado por folhas verdes que bordejam o horizonte ao longo de toda a cidade. O carro é do mesmo tom de verde, exceptuando a ferrugem e as marcas de lama. É um velho Dodge Dart que Manu por vezes usa como táxi clandestino. Mesmo com as janelas abertas, tresanda a suor, tabaco e purificador do ar. Se tiverem de esperar muito mais tempo, pensa Manu, o cheiro há-de matá-los antes do calor.

São duas da tarde, e um sol brutal mantém a maior parte das pessoas dentro de casa. A única actividade tem lugar um pouco mais à frente, onde um bando de miúdos mais velhos chutam uma bola de futebol entre eles. Minorai não tira os olhos deles desde que chegaram. Nos seus sonhos, ainda há-de chegar a jogador profissional no Atlético Nacional, o melhor clube de Medellín, mas neste momento a droga que lhe corre nas veias não deixa que o formigueiro lhe chegue aos pés. Afinal de contas, Minorca está aqui para cumprir uma missão, e portanto Manu injectou-lhe duas doses dos medicamentos antipânico que guarda no porta-luvas do carro.

Ouve lá, se um gajo se engana e exagera na dose, aquela coisa põe-te a ressonar num segundo. Era apenas uma questão de os manter concentrados sem destruir a adrenalina natural que transformava os mais pequenos em corrente eléctrica. Nas mãos certas, era uma mistura letal. Como a lei não permitia prender um menor por assassínio, isso tornava-os ideais para o cargo. A menos que o governo fizesse cumprir a sua inútil legislação e os tomasse sob sua alçada, os assassinos a soldo, como este, acabariam sempre na rua. Aí seriam protegidos, e encontrariam mesmo um objectivo de vida, mais do que aquilo que o Estado tinha para lhes oferecer. É verdade que tinham sido criados alguns centros de reabilitação para salvar os delinquentes deles próprios, mas não estavam nem perto de serem suficientes. Abandonados mas intocáveis, estes miúdos davam assassinos perfeitos.

Ouvem-se vozes numa entrada: um casal que conversa. O Minorca concentra-se no edifício de betão no outro lado da rua e ouve Manu confirmar que é ele – o idiota que fala demais. Vêem um homem de negócios de meia-idade sair do edifício, e concordam que a mulher deve ser a que vem atrás. O homem pára para dizer umas palavras de despedida à mulher, atira o casaco sobre um ombro, e avança rua abaixo, tal como tinham dito ao Minorca. Manu volta-se para observar o rapaz e vê-o a mascar pastilha elástica ainda com mais fúria. Todos os miúdos passavam por esta fase. Os problemas só começavam quando se fartavam daquilo que faziam, ou pensavam que podiam evitar os tiros, mas esta ainda tem muito que andar. Manu vira-se, mete a mão fora da janela e abre a porta de trás. Ter de trancar a porta é uma dor de alma, mas é uma precaução necessária contra mudanças de opinião.

“Um bocadinho de medo nunca fez mal a ninguém”, é a última frase que o rapaz lhe ouve. “Se puderes, faz um trabalho limpo. Até pode ser que consiga aqueles bilhetes para o campeonato que o chefe está sempre a prometer.”

Publicado em pedagogia | Sem comentários ainda

  • Aproxima-se o Natal

    • Começando a pensar no Natal
  • Páginas

    • ͼ Actividades baseadas em imagens
    • ͼ Histórias com sugestão de actividades
    • ͼ Histórias por ordem alfabética
    • ͼ Sugestões de leitura
    • ͼ Textos de reflexão
  • Reflectir com crianças e adolescentes

    • Histórias para ler e pensar
    • Pensamentos para crianças
    • Valores Humanos
  • Sites / Blogues

    • - Histórias para os mais pequeninos
    • Contadores de Histórias
    • Cristais Poéticos
    • Diálogo de Culturas
    • Gerações em Diálogo
    • Palavras Vivas
    • Um pensamento para cada dia
  • Últimas postagens

    • O elefante acorrentado – Jorge Bucay
    • O Cantor do Vento – William Nicholson
    • Gritos contra a indiferença – Fernando Nobre
    • O azulejo bumerangue – Jorge Bucay
    • “Maravilhas” ignoram o passado esclavagista de Portugal
    • A folha do limoeiro – Memórias – Mónica Baldaque
    • Uma mulher rebelde – Ayaan Hirsi Ali
    • Pequenos assassinos – Matt Whylman
    • Pegadas na Areia – Margeret Fishback Powers
    • Um Amigo Invulgar – L. S. Mathews
  • Categorias

  • Entradas Mais Lidas

    • Textos de reflexão
    • Histórias
    • A menina dos fósforos
    • O elefante acorrentado - Jorge Bucay
    • Actividades baseadas em imagens
    • A menina e o pássaro encantado - Ruben Alves
    • A importância de brincar em idade pré-escolar
    • Meninos de todas as cores - Luísa Ducla Soares
  • Título e data das postagens

    Novembro 2009
    D S T Q Q S S
    « Out    
    1234567
    891011121314
    15161718192021
    22232425262728
    2930  

Blog em WordPress.com.

Tema: Mistylook por Sadish.