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Histórias em Português

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O Complexo do Principezinho – A negação da morte

06 por contadores.destorias

Jacques-Antoine Malarewicz
O Complexo do Principezinho
Lisboa, Estrela Polar, 2007

(excertos adaptados)

Acima de tudo, Jovem!

 

Como qualquer outra, a nossa sociedade constrói-se a cada momento a partir, e à volta, de certos valores, que têm um carácter de evidência tal que não parecem poder, nem mesmo dever, ser postos em causa. Insensivelmente, e no espaço de uma geração, da década de 1970 aos nossos dias, a juventude transformou-se no valor central à volta do qual a nossa sociedade de consumo se constrói e desenvolve.

Esta necessidade de promover a juventude manifesta-se não apenas no discurso político mas também na vontade de satisfazer novas expectativas. A esperança de vida não cessa de aumentar nos países mais ricos, a necessidade de filiação faz com que a procriação seja cada vez mais artificial e a morte tende a desaparecer da nossa paisagem mental. De curativa, a medicina acabou por se transformar em preventiva, adaptou-se a todas estas novas solicitações.

E, sobretudo, mudou profundamente a nossa relação com o tempo e com a sua duração. Temos, agora, tendência a fundirmo-nos intimamente ao instante, ao presente imediato. Isso permite libertarmo-nos dos danos da idade. Reencontramos, frequentemente, esta cultura do imediatismo nos períodos de guerra onde a incerteza do amanhã dá um novo sabor ao quotidiano. É, aliás, possível que estejamos em guerra contra os nossos medos.

 

A negação da morte

 

A glorificação da juventude faz-se «naturalmente» na negação e ignorância do envelhecimento e da morte. Vivemos assim numa sociedade que tem cada vez mais tendência a negar a morte e a apagar as suas manifestações mais aparentes. Morrer transformou-se em objecto de escândalo. Os rituais que acompanham o desaparecimento de uma pessoa têm tendência a apagar-se ou, pelo menos, a perder o essencial do valor simbólico e emocional que antes tinham. Estes rituais têm tendência a tornarem-se cada vez mais breves e confidenciais. Já não há furgões mortuários nas ruas, os cortejos funerários desfilam geralmente ao ritmo da circulação rodoviária afogados no anonimato das auto-estradas e dos grandes eixos.

As crianças são elas próprias protegidas da realidade da morte e só a percebem através de uma experiência essencialmente virtual. A nossa existência, essencialmente urbana, já não as põe em contacto com o sofrimento e o desaparecimento de animais, como podia ser o caso num mundo rural. A morte de um cão ou de um gato, a ida para o matadouro de uma vaca ou de um cavalo assumiam, noutros tempos, um sentido imediato, eram acontecimentos que continham, manifestamente, um valor de aprendizagem.

Actualmente, as crianças recebem imagens de cadáveres via televisão ou cinema, mas esses mortos são constantemente banalizados, «virtualizados» e, sobretudo, são cadáveres que vêm de longe[1]. Na maioria das situações, é a violência que prevalece. Isso faz com que a criança sinta dificuldade em imaginar outras circunstâncias que provoquem a morte. Ela só pode ser o resultado de uma acção brutal, num contexto de lutas, de guerras ou de terrorismo. Os cadáveres de que as crianças se podem aperceber através dos media não lhes são explicados já que os próprios adultos acabam por ignorar essas imagens, ou por má consciência ou por ser mais cómodo.

Os jogos de vídeo banalizam e desdramatizam a morte. Cada personagem dispõe geralmente de várias «vidas», o que exclui qualquer fim fatal e definitivo. O inexorável não existe – seria muito difícil de aceitar – mas a sua ausência não permite a aprendizagem de um limite que não pode ser ignorado.

Mais uma vez, os adultos transmitem às crianças a sua própria apreensão da morte. Por exemplo, quando ouço pessoas que estão a viver um luto, espanto-me com o vocabulário por elas utilizado. Raramente falam de «morte», mas sim de desaparecimento ou perca. A palavra «morte» nunca é pronunciada ou então raramente. Diz-se que esta ou aquela pessoa «nos abandonou», ou ainda que se «retirou», que «partiu».

Na mesma ordem de ideias, vejo cada vez mais pais que pedem uma consulta para o filho – cuja idade varia geralmente entre cinco e dez anos –, o qual, segundo eles, fala frequentemente de morte. No espírito de determinados adultos passou a ser insuportável que as crianças possam utilizar um termo que eles já abandonaram. Vêem aí, rápida e facilmente, uma manifestação patológica e, consequentemente, um comportamento inquietante que justifica, aos seus olhos, uma ida ao psiquiatra.

De facto, quando uma criança sente que pronunciar a palavra «morte» é mal aceite pelos pais, até quase se transformar em provocação, ela tenderá a servir-se da palavra como arma de manipulação. Esta criança não está doentiamente obcecada pela morte, apenas utiliza um poder que lhe é dado pelos pais no medo que têm em afrontar, eles próprios, a existência da morte.

A criança tem necessidade de «conhecer» a morte, tal como lhe é necessário descobrir todas as declinações da vida; isso significa que tem necessidade de se confrontar com a realidade total. Geralmente, esta aprendizagem faz-se por volta dos seis, sete anos, ao mesmo tempo que conhece o tempo e, consequentemente, a duração. O finito e o infinito assumem então um sentido para a criança, ela integra a existência de um limite que deveria transformar-se no próprio exemplo de qualquer limite.

 

Confronto e mimetismo

 

As décadas de 1950 e 1960 foram caracterizadas pelo que se chamou “conflito de gerações”, ou seja, a vontade dos jovens em se … (continuação)


[1] As autoridades americanas tentaram evitar a todo o custo a difusão de imagens de cadáveres depois do ataque terrorista contra as Torres do World Trade Center, em Nova Iorque. Esses cadáveres estavam demasiado próximos, embora a foto de um recém-nascido africano, morto pela Sida, seja «politicamente correcta».

 

Publicado em adolescentes, antropologia, comportamentos, educação, família, morte, pedagogia, psicologia, reflexão, reflexão para pais e educadores, sociedade | Sem comentários ainda

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