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Histórias em Português

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A bulimia ou a fusão total – Julie no corpo da mãe

06 por contadores.destorias

Jacques-Antoine Malarewicz
O Complexo do Principezinho
Lisboa, Estrela Polar, 2007

(excertos adaptados)
Anterior: A anorexia ou o último controlo  ( … ) Os mecanismos de protecção são, nestes casos, notáveis: os conflitos são sistematicamente evitados e qualquer intrusão é geralmente muito mal aceite. Não é um terapeuta que pode pretender dizer-lhes o que devem fazer e ainda menos permitir-se julgar o comportamento deles.

 

A bulimia ou a fusão total

 

Com a bulimia e a obesidade, mudamos de registo. Já não se trata de um controlo absoluto e manifesto do corpo. Bem pelo contrário, é uma derrota total, uma demissão definitiva perante as múltiplas tentações que a abundância alimentar e o aumento do nível de vida permitem, o que conduz ao abandono de qualquer medida. Mas esta ausência de controlo pode apresentar algumas vantagens.

Como acontece com a anorexia, a bulimia diz respeito a nove mulheres por um homem, ou seja, 2 por cento da população feminina, entre a qual 6 por cento são estudantes. Cerca de 70 por cento das mulheres que sofrem de bulimia têm um peso normal. Fala-se de obesidade quando o peso ultrapassa 20 por cento daquele que corresponde, normalmente, à estatura do indivíduo. Em França, 10 por cento das crianças sofrem de obesidade, percentagem que duplicou nos últimos quinze anos. A Europa conta com 30 por cento de obesos e os Estados Unidos da América com 60 por cento. A obesidade corresponde, em número de pessoas, à primeira doença não contagiosa.

Ritmo de vida, ausência de actividades físicas, desestruturação das refeições, e por via disso a da vida familiar, abundância de açúcares rápidos e de componentes gordurosas numa alimentação pronta a comer, tempo passado perante a televisão ou ecrã de televisão e, inclusive, as incitações fiscais sobre a taxa do IVA, todos estes elementos encorajam o «trincar» contínuo e a instalação de maus hábitos alimentares nas crianças e nos adolescentes.

Provavelmente, mais do que a anorexia, factores genéticos predispõem a uma má gestão, através do metabolismo corporal, da massa gordurosa. Isso é claro em algumas famílias. O comportamento bulímico, que tem como consequência um aumento de peso importante, pode ser igualmente abordado sob o ângulo das relações intra-familiares.

De facto, da mesma forma que a anorexia coloca a questão da sexualidade e das relações com os homens em geral, e com o pai em particular, a bulimia remete para a ligação materna e para a nostalgia de uma fusão regressiva. Uma espécie de corpo-a-corpo que «solda» a mãe e a criança numa bolha, na mesma bolha!

Como em muitas relações humanas, esta fusão constitui-se numa cumplicidade escondida e tanto mais eficaz quanto é, geralmente, inconsciente. Cada um dos dois protagonistas tira vantagens de uma conciliação que se explica, também, tanto pela história familiar como pela história do casal ou, ainda, pela subtil alquimia que ocorre entre uma mãe e a sua filha.

A ligação com a anorexia pode ser estabelecida no controlo relacional que permite a bulimia e de que a mãe é aqui o objecto. Ainda aqui a pobreza da vida conjugal dos pais abre portas a esta possibilidade. A mãe está «ocupada» com o seu filho e, mais frequentemente ainda, com a sua filha, na medida em que o pai está ausente da vida afectiva da esposa. De novo, o poder da criança é exercido de forma inesperada e indirecta. Neste caso, na promiscuidade corporal e na regressão alimentar.

Na idade adulta, eventualmente para lá da adolescência, e apesar da distância geográfica, esta cumplicidade pode perdurar na repetição da mesma relação com os alimentos e com o corpo. Os alimentos tranquilizam e trazem instantaneamente o calor da saciedade e da satisfação rápida de uma necessidade fundamental. Comer e, sobretudo, «trincar», diminui e anestesia a angústia. A regressão é imediata e pode ser repetida e relançada incessantemente, tanto de dia como de noite.

O corpo é receptáculo, dispõe-se a ter um único amor, o da mãe, que qualquer um sabe ser inesgotável. O acesso a uma sexualidade adulta já não é necessário. Este amor tem a reputação de ser difícil de encontrar e, sobretudo, de salvaguardar. As gorduras, a amplidão e a espessura do corpo são uma protecção eficaz que afasta e desvia o olhar do outro sexo. O cordão umbilical nunca é pois cortado, até na intimidade das fantasias. Que o amor materno tenha sido efectivamente enorme ou, ao contrário, inexistente, o resultado é o mesmo. Trata-se ou de o reencontrar ou, então, de o encontrar numa alimentação permanente.

 

Julie no corpo da mãe

 

Julie tem 15 anos. Vem acompanhada pelo irmão mais velho, Stéphane, com 18 anos, e pelos pais. É a sua importante obesidade que motivou o pedido de primeira consulta: pesa noventa e cinco quilos e tem um metro e sessenta de altura. De facto, a situação familiar é mais complexa do que aparenta.

 

PAI (que toma imediatamente a palavra) — Quero precisar desde já que sou o padrasto, não sou o pai biológico de Julie e do seu irmão… As crianças tratam-me pelo meu nome, que é Pierre…

MÃE — Sim, é importante. O pai deles abandonou-nos por ocasião do nascimento de Julie, regressou inesperadamente a casa dos pais dele, situada a oitocentos quilómetros daqui… As crianças estão com ele duas ou três vezes por ano… nas férias… geralmente as coisas não se passam demasiado mal… ele tem outros dois filhos, que nunca vi, mas os meus conhecem-nos…

TERAPEUTA — A senhora voltou a casar?

MÃE — Não, não… mas de qualquer forma… também não estava casada da primeira vez… Pierre e eu vivemos em união de facto…

 

O afastamento do pai biológico influenciou certamente as relações entre as crianças e o padrasto. Simbolicamente, o facto de esta mulher e este homem não serem casados fragiliza a sua ligação. Também não têm filhos em comum. Tudo isso gera o risco de deixar um lugar demasiado amplo à nostalgia de um passado que se mitifica à medida que o tempo passa.

O comportamento não verbal de uns e outros faz com que eu pense que Pierre não deve ter sido facilmente adoptado, pelo menos pelas crianças e, talvez até pela própria mãe delas, apesar das aparências que pretendem dar. Este problema de obesidade oculta – ou manifesta – é mais lato e diz respeito a toda a família.

 

TERAPEUTA (dirigindo-se à mãe) — Como vê as relações entre Stéphane, Julie e o seu companheiro?

MÃE — Do meu ponto de vista, é uma boa parte do problema. Talvez não directamente o problema da Julie, mas o problema da família. De facto, as coisas passam-se menos mal entre Stéphane e Pierre e muito mal entre Julie e Pierre… Pode-se dizer que é a ignorância total… discuti frequentemente o assunto com o Pierre… mas há já tanto tempo que isso dura… estou bastante desencorajada…

TERAPEUTA — E entre os dois filhos?

MÃE — Stéphane vive no seu mundo com os amigos… ficam entre rapazes, o que faz com que quase nada partilhe com a irmã… é necessário dizer que os três anos de diferença de idade entre os dois os separam cada vez mais…

STÉPHANE — Seja como for, ela ainda brinca a maior parte do tempo com as bonecas e os ursos…

JULIE — E tu com o teu computador, o que não é melhor…

PIERRE — De qualquer forma, penso que as coisas tendem a melhorar entre a Julie e eu… claro, não é espectacular, mas estão melhor…

MÃE — És o único que acredita nisso…

 

Os laços familiares parecem ordenar-se mais de acordo com um eixo vertical do que numa hierarquia pais-filhos. Cada um dos filhos está muito mais próximo de um dos pais do que do outro. É por isso que existem nesta família dois lados: de um lado, as mulheres, do outro, os homens. Julie encontra-se «naturalmente» muito mais próxima da mãe do que do padrasto.

 

TERAPEUTA — E o senhor, como analisa as relações entre os filhos e a mãe?

PIERRE — De uma certa maneira, é quase o oposto. Direi que é quase «serviço mínimo» com Stéphane e… fusão total com a Julie…

MÃE — Estás a exagerar…

TERAPEUTA — Fusão total? Que quer dizer com isso?

PIERRE — Sim, é isso: fusão total… Vivemos juntos há quase quinze anos, já tive tempo suficiente para observar o que se passa entre as duas. Apetece-me dizer que entre as duas não existe espaço para uma agulha… Julie pensa com o cérebro da mãe e a mãe age através das reacções da filha…

 

Esta imagem descreve perfeitamente o que pode ser este tipo de ligação. Não é necessariamente físico, mas desenvolve-se ainda mais intimamente na sinergia dos modos de pensar e dos comportamentos que ordenam o quotidiano. Essa ligação constitui-se em detrimento de outras ligações.

TERAPEUTA — Qual é o seu lugar?

PIERRE — Em geral, na família?

TERAPEUTA — Sim, isso mesmo…

PIERRE — Difícil… difícil de chegar depois da saída do pai das crianças… o que posso compreender… Ficaram muito ligados a ele, apesar da distância…

TERAPEUTA — E tu, Stéphane, como analisas as coisas?

STÉPHANE — É como ele diz… De qualquer maneira, estou frequentemente fora de casa… com os amigos… não sei o que vim hoje aqui fazer…

TERAPEUTA — Não estás preocupado com a Julie?

STÉPHANE — É verdade que com o seu problema de peso… ela devia fazer dieta… quero dizer uma verdadeira dieta… que, por uma vez, respeite…

TERAPEUTA — Estás então preocupado com ela?

STÉPHANE — Sim…

 

A solidariedade entre irmão e irmã é bem ténue. A sua conivência resume-se à nostalgia daquilo que podia ter sido a vida deles com o pai biológico e ao ciúme que ambos sentem pelos dois outros filhos do pai. Tentei, sobretudo, aumentar essa conivência ao avistar-me com os dois durante uma dezena de sessões. Por razões diferentes, tanto Stéphane como a mãe foram muito reticentes. A mãe sentiu que corria o risco de um afastamento da filha, o irmão temia afastar-se dos amigos. Depois, reuni-me com os pais para os ajudar a construir novos projectos em comum, e também durante dez sessões.

Este tipo de trabalho pode ser longo, porque se trata de desfazer tudo o que se refere ao passado antes de construir o que pode constituir o futuro. O sintoma de Julie garantia, de alguma forma, a ausência de mudança e o seu peso transformara-se na metáfora concreta do fardo derivado do conjunto da situação familiar.

 

Anorexia e bulimia

Um mesmo continuum percorre o caminho que separa a aparente oposição entre anorexia e bulimia. Trata-se de (…)  continução  

Publicado em adolescentes, antropologia, comportamentos, família, pedagogia, psicologia, relacionamento | Sem comentários ainda

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