Racismo

Eduardo Galeano
De pernas para o ar – a escola do mundo às avessas
Lisboa, Editorial Caminho, 2002
(excerto)

Curso básico de racismo e de machismo

Os mitos, os ritos e os fitos

Nas Américas, e também na Europa, a polícia caça estereótipos, culpados do delito de porte de cara. Cada suspeito não branco confirma a regra escrita, com tinta invisível, nas profundezas da consciência colectiva: o crime é negro, ou castanho, ou pelo menos amarelo.

Esta demonização ignora a experiência histórica do mundo. Para não ir mais longe do que estes últimos cinco séculos, ter-se-ia que reconhecer que não foram nada escassos os crimes de cor branca. Os brancos constituíam não mais do que a quinta parte da população mundial na época do Renascimento, mas já se diziam portadores da vontade divina. Em nome de Deus, exterminaram não sei quantos milhões de índios nas Américas e arrancaram sabe-se lá quantos milhões de negros de África.

Brancos foram os reis, os vampiros de índios e os traficantes negreiros que fundaram a escravatura hereditária na América e em África, para que os filhos dos escravos nascessem escravos, nas minas e nas plantações.

Brancos foram os autores dos incontáveis actos de barbárie que a Civilização cometeu, nos séculos seguintes, para impor, a ferro e fogo, o seu branco poder imperial pelos quatro pontos cardeais do globo.

Brancos foram os chefes de Estado e os chefes guerreiros que organizaram e executaram, com a ajuda dos japoneses, as duas guerras mundiais que, no século xx, mataram 64 milhões de pessoas, na sua maioria civis; e brancos foram os que planearam e levaram a cabo o holocausto dos judeus, que também incluiu vermelhos, ciganos e homossexuais, nos campos de extermínio nazis.

About these ads