• Início
  • Histórias
  • Sugestões de leitura
  • Comentários
  • Actividades baseadas em imagens
  • Textos de reflexão

Histórias em Português

Um blog onde os Contadores d'Estórias colocam histórias de que gostam e que querem partilhar. Sirva-se e dê-lhes vida! Quer também recebê-las por email? Procura histórias sobre um algum tema ou para um fim específico? Escreva-nos! estorias.em.portugues(at)gmail.com Os nossos objectivos são meramente pedagógicos, sem qualquer interesse financeiro.

Feeds:
Posts
Comentários

Lixo e Cidadania – Boaventura Sousa Santos

04 por contadores.destorias

Lixo e Cidadania

Acabo de participar, como conferencista, no 6° Festival do Lixo e Cidadania realizado em Belo Horizonte, por iniciativa do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR). Uma experiência estranha e riquíssima. Estranha, porque juntou o mais desprezível (o lixo) com o mais precioso (a cidadania), num tipo de evento (festival) a que associamos celebração e alegria. Riquíssima, porque aprendi ou reaprendi incomparavelmente mais do que ensinei.

Aprendi que os seres humanos, mesmo os mais excluídos e nas condições mais indignas -aqueles para quem o nosso lixo é um luxo e o endereço é um viaduto ou uma soleira de porta – não desistem de lutar por uma vida digna, assente na reivindicação de direitos de cidadania que, apesar de impunemente desrespeitados, lhes dão notícia da sua humanidade. São milhares de sombras móveis coladas a carroças desengonçadas que percorrem as cidades, atrapalhando os postais ilustrados e a indústria turística, populações descartáveis apesar de ganharem o seu sustento colectando para reciclagem o que descartamos como papel velho, vidro e plástico usados ou sucata.

Aprendi que muitas das lutas mais exigentes pela inclusão social exigem formas de organização e mobilização autónomas, já que as agendas dos partidos não contemplam as aspirações dos mais excluídos e os sindicatos não reconhecem formas de trabalho que extravasam do modelo do capitalismo industrial. O MNCR agrega hoje centenas de organizações e cooperativas de que são membros cerca de 300 mil catadores. Por via da organização e mobilização ressignificaram a sua auto-estima e identidade, passando de miseráveis comedores de lixo a uma ocupação profissional, a de «catador de material reciclável», reconhecida pelo Código Brasileiro de Ocupações sob o número 5192.

São, pois, recicladores que reciclaram a sua própria vida. Aprendi que a sociedade de consumo em que vivemos – baseada na incessante fabricação de necessidades que não temos e no endividamento extremo que nos impede de satisfazer as que verdadeiramente temos -despreza o saber ecológico daqueles que transformam os restos do consumo em consumo sustentável de restos. Calcula-se que o mundo produz anualmente 1,84 biliões de toneladas de lixo por ano, a maior parte dele resíduos sólidos que, por falta de reaproveitamento, poluem a atmosfera e contaminam o solo e as águas subterrâneas. Nem mesmo os movimentos ambientalistas dos países com milhares de catadores de lixo se deram conta destes seus aliados naturais, certamente não pertencentes, como eles, à classe média e muito menos portadores de discursos que escondem com a beleza das palavras a sujidade do mundo.

Aprendi ainda que há uma alternativa à economia do egoísmo – que o capitalismo transformou no modo natural de fazer, ter e ser -, a economia do altruísmo, das cooperativas e das organizações económicas populares onde a rentabilidade está ao serviço do bem-estar e se inclui, dentro do tempo de trabalho, o tempo de alfabetização e de formação profissional, a ginástica para aliviar o stress muscular da especialização (separação, triagem e enfardamento de sucata) e a discussão sobre violações de direitos humanos no trabalho e em casa, nomeadamente a discriminação sexual e a violência doméstica.

Neste domínio, há que registar a solidariedade prestada pelos serviços de extensão de universidades públicas que finalmente se deram conta que o seu futuro passa por um novo contrato social, não, como antes, vinculado às elites económicas, mas antes solidário com as classes populares e os cidadãos impotentes para fazer valer os seus direitos ante profissionais ininteligíveis e secretarias labirínticas. Afinal, talvez já soubesse tudo isto. Apenas fiquei a saber melhor que os excluídos não precisam que lhes ensinem o que é uma vida digna. Precisam apenas de aliados que possam dar testemunho deles e, com isso, ampliar a sua voz e a sua luta.

Boaventura de Sousa Santos
Visão, Setembro de 2007

www.ricosepobres.wordpress.com

 

Publicado em antropologia, comportamentos, responsabilidade, sociedade | Sem comentários ainda

  • Páginas

    • ͼ Actividades baseadas em imagens
    • ͼ Histórias com sugestão de actividades
    • ͼ Histórias por ordem alfabética
    • ͼ Sugestões de leitura
    • ͼ Textos de reflexão
  • Reflectir com crianças e adolescentes

    • Histórias para ler e pensar
    • Pensamentos para crianças
    • Valores Humanos
  • Sites / Blogues

    • - Histórias para os mais pequeninos
    • Contadores de Histórias
    • Cristais Poéticos
    • Diálogo de Culturas
    • Gerações em Diálogo
    • Palavras Vivas
    • Um pensamento para cada dia
  • Últimas postagens

    • A filha do curandeiro – Amy Tan
    • Tobias e o Anjo – Susanna Tamaro
    • Uma professora em Katmandu – Vicki Sherpa
    • Água – Bapsi Sidhwa
    • O jardim da esperança – Diane Ackerman
    • A alma do mundo – Susanna Tamaro
    • Cartas de uma mãe – Catherine Dunne
    • O rapaz do pijama às riscas – John Boyne
    • Uma pedra no sapato – Luísa Beltrão
    • Regressar a casa – Rose Tremain
  • Categorias

  • Entradas Mais Lidas

    • Textos de reflexão
    • A festa de Carnaval
    • Histórias
    • A menina e o pássaro encantado - Ruben Alves
    • O elefante acorrentado - Jorge Bucay
    • A parábola dos talentos - Rubem Alves
    • Como estragar um filho - regras básicas 1/2
    • Actividades baseadas em imagens
  • Título e data das postagens

    Abril 2009
    D S T Q Q S S
    « Mar   Mai »
     1234
    567891011
    12131415161718
    19202122232425
    2627282930  

Blog em WordPress.com.

Tema: Mistylook por Sadish.