A importância de brincar em idade pré-escolar

In: Rituais de Vida saudável – Nº 4.
Novembro 2008

Texto: TERESA SANTOS
Psicóloga Clínica

A importância de brincar em idade pré-escolar

 

“Privar uma criança de brincar é privá-la do prazer de viver” – Françoise Dolto

Actualmente vive-se numa sociedade em que tudo se faz ‘a correr’. O tempo é um bem precioso e a gestão do mesmo acaba por ser uma arte de mestria. Esta constante vivência em ‘correria’, onde tudo é agendado ao minuto, contamina inevitavelmente o dia-a-dia das crianças, preenchido pela presença no jardim-de-infância ou na escola e em inúmeras actividades extra-curriculares. A própria evolução urbanística conduz a uma vivência confinada a espaços físicos restritos e limitados: o apartamento, os edifícios citadinos em que se situam os jardins-de-infância, escolas e pátios de recreio… “Está quieto”, “Não mexas nisso”, “Não te sentes no chão” são apenas algumas das imposições contínuas que bombardeiam as crianças todos os dias. Frequentemente, a actividade por excelência que as caracteriza – o brincar – fica esquecida no meio da rotina e das vivências diárias. Ora, durante muito tempo pensou-se que brincar não tinha utilidade biológica ou social, mas, na realidade, brincar é a forma de controlo das interacções sociais da criança e um meio poderoso de aprendizagem sobre o mundo. É um dos fenómenos mais comuns e naturais da infância, não específico ao Homem, mas também partilhado com outras espécies.

A actividade lúdica permite estabelecer um elo de ligação entre as crianças, sendo um poderoso auxiliar na construção da relação com os outros e com o meio que as rodeia. Detentora de um papel fundamental no desenvolvimento emocional, cognitivo e social, possibilita a estimulação da criatividade e o desenvolvimento da autonomia, da linguagem e de papéis sociais (fundamentais para a vida adulta), dotando a criança de maiores capacidades para pensar e resolver problemas. De facto, através do brincar, a criança vai-se familiarizando com as regras sociais e tomando contacto com experiências novas: ela explora, pesquisa, experimenta e aprende. Experimenta com relativa segurança ou com o mínimo de riscos (porque são situações puramente imaginárias) um novo comportamento familiar em contextos físicos ou sociais diferentes, sendo o comportamento lúdico em grande parte revogável: o que se faz ‘a brincar’ não tem as consequências habituais de um comportamento semelhante feito ‘a sério’. O jogo é algo com impunidade relativa e características não sérias. Toda e qualquer brincadeira requer que as crianças tenham consciência destes aspectos e que emitam e reconheçam o sinal que “isto é uma brincadeira”.

Brincar permite que a criança se mantenha fisicamente activa, que desenvolva a personalidade e as competências sociais, ajudando-a a lidar com emoções e sentimentos, possibilitando:

  • Encenar experiências emocionais (por exemplo, separação dos pais, situações de luto, alterações significativas na vida da criança, sentimentos de alegria, tristeza, ciúme, medo);
  • “Descarregar” tensões (por exemplo, alívio da dor, desconforto, frustração);
  • Pesquisar (observar, explorar, descobrir);
  • Treinar as competências de autonomia e de independência (actividade espontânea e voluntária, implicando empenhamento activo por parte da criança);
  • Divertir-se (sem objectivos específicos, apenas algo agradável e positivo).

À medida que a criança cresce, evolui socialmente de situações em que brinca sozinha, para brincadeiras mais cooperativas. Ser, ter, fazer, tomar, dar, amar, odiar, viver, morrer: todos estes verbos não ganham sentido senão através do jogo. O brincar assume, desta forma, uma preparação para as acções e comportamentos da idade adulta. Por tudo isto, para além do espaço do jardim-de-infância/escola e das activi¬dades extracurriculares (predomínio das regras e de momentos organizados/ estruturados) é também fundamental:

Aceitar e ter em conta o brincar desde o nascimento.

Antes do aparecimento da linguagem a criança já comunica com os adultos através da mímica, dos gestos, das actividades corporais e sensoriais. Por volta dos 3 meses, um dos primeiros jogos com o adulto é o de esconder o rosto e mostrá-lo de novo; depois surgem actividades de exploração e manipulação dos objectos do meio, jogos em torno do ter e guardar (encher objectos com coisas que se transportam), e, mais tarde, jogos de fazer coisas (puzzles, construções). A partir da idade em que a criança começa a andar, é preciso dar um especial destaque aos jogos com água, areia, ou terra, aos jogos de enchimento e de esvaziamento de recipientes. Este é o momento da explosão da curiosidade investigadora e manipuladora dos objectos, tudo suscita perguntas e tudo se tenta agarrar, despedaçar, fragmentar.

Variar os brinquedos da criança.

Quando a criança já descobriu as dificuldades de um jogo e as ultrapassou, poucas são as surpresas ou interrogações. É preciso variar os brinquedos e jogos de forma a estimular os sentidos, a criatividade e a inteligência da criança. Pode tentar trocar alguns brinquedos do seu filho/a com outras crianças, ou procurar uma ludoteca na zona de residência/ trabalho. (Nota: aqui entendem-se jogos de ludoteca os livros para crianças, os jogos de construção, os jogos de motricidade, inventivos, criativos, de lógica, etc; não são de forma alguma incluídos os peluches, a boneca preferida, enfim, os brinquedos que são ‘os primeiros amores’ da criança, que ela usa para adormecer, ou se acalmar quando os pais estão ausentes).

Reforçar a ideia de ter mais “tempo de qualidade” para brincar com o seu filho/a, do que “tempo de quantidade”.

São preferíveis 15 a 20 min., por exemplo, em que apenas está a brincar com o seu filho/a, do que 3 horas em que, no meio de outras tarefas, vai falando e interagindo. Esses momentos podem mesmo ser combinados com a criança de modo a que esta perceba que nesse tempo o adulto vai estar disponível só para si.

Evitar os “nãos” durante a brincadeira (por exemplo: “não corras”, “não saltes”, entre outros).

Para brincar, a criança tem de se sentir numa atmosfera segura e de não ameaça, portanto, estar continuamente em guarda perante os pais, educadores ou o próprio meio dificulta a tarefa espontânea de brincar. As crianças precisam de limites para se sentirem seguras, mas isso não significa que não possam exprimir os seus desejos, as suas alegrias e os seus desgostos (que devem ser aceites pelo adulto).

Levar o seu filho/a para brincar em espaços ao ar livre em que se efectuem actividades diferentes das realizadas no espaço físico limitado da casa ou do jardim-de-infância/escola.

O espaço é para as crianças um desejo muito intenso; é o mover-se, correr, descobrir coisas novas, enfim, sentir a vida em todos os poros. Porém, deve também ter-se em conta que algumas crianças brincam ficando apenas a olhar, ouvir, cheirar, sentir. São prazeres passivos, inteligentes, observadores e por vezes meditativos.

Reduzir a pressão na aprendizagem de conteúdos escolares, ainda em período pré-escolar.

Nesta fase, o que se torna realmente necessário é que a criança brinque, consiga enquadrar-se e socializar com o grupo, que respeite as regras da sala, que aprenda a ouvir os outros, que se concentre numa actividade (jogo, desenho, história, etc.) e que a termine dentro das suas capacidades; que desenvolva a motricidade, a criatividade e a capacidade de pensar sobre as coisas. Basicamente, a criança necessita de crescer, ganhar maturidade e competências sociais para, futuramente, estar mentalmente disponível para aprender a ler, escrever e contar, quando ingressar na escola.

 

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