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Em defesa da cultura escrita

06 por contadores.destorias

Alfredo Barroso
in: Expresso, 25 de Marco de 2000

 

Em defesa da cultura escrita

Sou, desde que me conheço, um frequentador de bibliotecas, livrarias, feiras e salões de livros. Sou um leitor compulsivo e, também, um bibliófilo. Sou um produto típico da cultura escrita, hoje cada vez mais desprezada pelos tecnocratas que governam o mundo. Tive a sorte — que, hoje, talvez seja considerada um azar — de pertencer a uma geração de portugueses cuja adolescência não foi dominada pela omnipresença dos ecrãs de televisão. Para lá dos desportos, que pratiquei com imenso prazer, os meus tempos livres também foram preenchidos, desde cedo, pela literatura, pela música e pelo cinema.

Nietzsche dizia que «sem a música, a vida seria um erro» — e não se referia propriamente à música produzida industrialmente ou, muito menos ainda, à música «pimba». Parafraseando o filósofo, hoje também se poderia dizer que «sem a literatura, a vida seria um erro». Numa entrevista muito recente ao El Pais Semanal, Mário Vargas Llosa salienta que a «literatura é fundamental para manter uma atitude crítica perante a realidade e o mundo e para manter uma linguagem renovada e vigorosa». O escritor lamenta: «As pessoas falam cada vez pior, porque lêem pouco e vêem muita televisão e a sua linguagem é mínima.» A literatura «é um contrapoder», mas está a ser devastada pela televisão.

Como leitor compulsivo e amante da literatura, só posso regozijar-me com a promoção de obras de escritores portugueses em eventos tão importantes como a Feira do Livro de Frankfurt e o Salão do Livro de Paris. Receio, porém, que o seu efeito na promoção do livro e da leitura seja ainda mais circunstancial e efémero do que aquele que resultou da atribuição do Prémio Nobel da Literatura a José Saramago. Continuam a ser muito poucos os portugueses que lêem jornais e ainda menos os que lêem livros. Infelizmente, não é um problema que afecte apenas os portugueses. Os baixíssimos índices de leitura afectam, por igual, tanto os europeus como os americanos. O nível de iliteracia é aterrador.

O problema é de civilização. A cultura audiovisual — que é passiva, massificadora, minimalista, uniformizadora, acrítica, redutora e utilitarista — está a escorraçar a cultura escrita — que é activa, reclama um esforço individual, incita à curiosidade, convida ao saber e estimula a sensibilidade, a reflexão e a crítica. Infelizmente, na «sociedade de inovação e conhecimento» que nos querem impingir, a televisão e o computador são essenciais, mas a literatura é dispensável — a não ser como indústria e «álibi decorativo» que pode produzir lucros e não propriamente cultura. E, no entanto, a língua, a literatura e a cultura são fundamentos da nossa própria identidade individual e colectiva, são os esteios do pensamento, da sensibilidade, do espírito crítico, da consciência histórica e das nossas atitudes perante a vida. A menos que queiram fazer de nós «homens-robô» em vez de cidadãos.

Num livro arrasador que acaba de ser traduzido em português (Homo Videns — Televisão e Pós-pensamento), Giovanni Sartori alerta: «cada vez mais, a educação especializa e fecha-nos em competências específicas»; «a televisão empobrece drasticamente a informação e a formação dos cidadãos»; «o mundo por imagens que nos é proposto por “videover” desactiva a nossa capacidade de abstracção e, com ela, a nossa capacidade de compreender os problemas e de os enfrentar racionalmente»; «aquilo que nos espera é uma solidão electrónica» habitada por «doentes de vazio» dominados pelo vídeo e pela Internet. «Temos de reagir com e na escola» — salienta Sartori. Infelizmente, a «tendência é para encher as salas de aula com televisores e word processors». Porque «as pobres crianças têm de ser entretidas». Só que, «dessa forma, nem sequer se ensina a escrever e o ler é marginalizado o mais possível». «A escola reforça a videocriança, em vez de a contrariar.

Giovani Sartori constata que o «pós-pensamento está a triunfar» e que a «ignorância tornou-se quase uma virtude». Todavia, não desespera e ainda acredita que é possível fazer retroceder a incapacidade de pensar» e regressar ao «pensamento», condição de sobrevivência da sociedade ocidental. Mas avisa: «Certamente não haverá esse regresso se não soubermos defender até ao fim a leitura, o livro e, em suma, a cultura escrita». Reabilitar a cultura escrita não é nostalgia nem retrocesso. É um combate de vanguarda!

 

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