Dinâmica da dádiva, dinâmica do jogo

 

Massimo Bettetini
O que aconteceu a Peter Pan?
Lisboa, Paulus Editora, 2007

(excerto adaptado)

DINÂMICA DA DÁDIVA, DINÂMICA DO JOGO

Duas forças, podemos dizer, convivem em cada ser humano: uma força centrípeta, que leva ao centro de Si, e uma força centrífuga, que leva ao Outro. O equilíbrio interior manifesta-se na dinâmica da dádiva, quando, forte de Si, o indivíduo se deixa levar pela força que conduz ao Outro, pela força centrífuga. E, se isto é válido para os adultos, é-o também para quem é adulto in fieri, ou seja, para a criança. Mas, para tal, é importante a contribuição da mãe e do pai.

Os últimos anos viram o fiel da balança das ciências pedagógicas pender para uma direcção que soube ter mais presente a protecção do Eu em relação ao Tu, muito embora tenhamos que estar atentos às areias movediças do egocentrismo e do narcisismo. Isto deve-se a muitos pensadores (entre eles podemos citar Viktor E. Frankl e a logoterapia, tal como a hipnoterapia segundo a Escola de Milton H. Erikson), mas especialmente a uma maior tomada de consciência e de conhecimento comuns. A existência humana não é feita para sobreviver, para procurar um estado de descanso no qual possa proteger-se dos ataques provenientes do exterior; a vida humana é feita para nos lançarmos com prudência e segurança na imprevisibilidade da existência, enriquecermo-nos e enriquecermos os outros na dialogicidade que se instaura entre o Eu e o Tu, o Outro.

Cada criança nasce com uma bagagem de percepções e de sensações provenientes do mundo intra-uterino. Num momento inicial, os conhecimentos dizem respeito, fisicamente, a percussões líquidas, leves e mitigadas, vozes, sons, músicas, rumores; psicologicamente, porém, também há as expectativas, as impressões positivas ou negativas que os adultos derramam e projectam sobre o feto. Na altura do nascimento, estes primeiros conhecimentos alargam-se ao mundo exterior e a uma percepção mais precisa do próprio corpo.

A criança toca-se, vê-se parte de si mesma; toca e ouve falar os outros, sobretudo a mãe, que desaparece e depois reaparece, num jogo contínuo de aproximação e de afastamento; reconhece as vozes e diferencia positiva ou negativamente o tom das mesmas. Vê e toca objectos, aprendendo que estão fora de Si. Assim começa a aventura do conhecimento. Tudo isto suscita na criança sensações de acolhimento, de defesa, de gratificação, de agressividade, que se manifestarão de modos bem diversos.

Assim se geram duas forças cognoscitivas e relacionais: uma que se dirige para fora de si, a outra para dentro, para o centro do seu Eu. O desenvolvimento levará rapidamente estas forças a estruturarem-se em atitudes que terão repercussões no futuro adulto do indivíduo. A força centrípeta, a que se dirige para o Eu, deverá sempre medir-se com a força centrífuga, aquela que se dirige para o exterior. A pergunta que surge espontânea é a de estabelecer qual deve ser a relação entre estas duas forças, onde encontrar aquilo a que Schiller chamou o “instinto do jogo”.

Um bom estudo de higiene mental diz-nos que, se a pessoa tende a concentrar as suas energias cognoscitivas sobre o Eu, implode, desequilibra-se, e uma “ocupação” correcta e louvável sobre si mesmo pode transformar-se no início de um mal-estar. Tal como já foi demonstrado, concentrar-se nas próprias sensações, no próprio mal-estar, nos incómodos que inevitavelmente acompanham o dia-a-dia, aumenta as possibilidades de adoecer de verdade.

O equilíbrio interior consiste, pelo contrário e paradoxalmente, em saber “desequilibrar-se” em direcção aos outros, tentando centrar a atenção sobre eles. Quando caminhamos, colocamos um pé à frente do outro, e perdemos, por um momento, o equilíbrio, para o recuperarmos no passo seguinte, tornando a perdê-lo e a recuperá-lo de novo. Se nos concentrássemos em cada um dos passos, seríamos tomados pelo medo, o que levaria a um bloqueio: não voltaríamos a caminhar. Pelo contrário, se nos abstrairmos do que estamos a fazer, avançamos para a meta, a dinâmica da caminhada torna-se fluida, e caminhamos…

Assim acontece na vida: quem se concentra apenas em si mesmo, bem depressa encontrará problemas. Quem, pelo contrário, souber dirigir a atenção para fora de si, para os outros, para o Outro, ultrapassará com maior facilidade sucessos e insucessos, saúde e doença, porque a vida será sempre em subida dinâmica, em direcção àqueles valores que tornam a existência digna de ser vivida.

A questão é importante e pode considerar-se o resumo do que expressámos até agora. Os casos de mal-estar e depressão infantil parecem, de facto, estar a aumentar. Mas a sensação de falhanço destes jovens não deve ser procurada nas más notas na escola ou na reprimenda do pai ou da mãe, e nem sequer por terem sido molestados por um rapaz ou uma rapariga. O insucesso deve procurar-se mais facilmente nos dinamismos de que temos vindo a falar. Infelizmente, o papel desempenhado pela família deixa muitas vezes a desejar. É importante a contribuição dos educadores, mas a dos pais continua a ser essencial.

As forças interiores que descrevemos, o equilíbrio entre elas – que podemos definir conjuntamente como dinâmica da dádiva –, são importantes não só para os adultos, onde já estão estruturadas, mas mais ainda para as crianças. Educar para dar-se implica uma série de capacidades ínsitas na criança, capacidades essas que os adultos podem fazer emergir ou potenciar. Entre estas, saber acolher o outro na sua diversidade (tendo em conta também os elementos semelhantes), saber ceder e emprestar coisas materiais, prestar ajuda em assuntos didácticos, informar-se quais são os interesses dos outros nos jogos, colaborar no jogo dos outros mesmo se, de momento, as preferências iam para outro lado…. São aspectos simples que fazem parte da normal convivência humana, mas que ajudam a focalizar a atenção naquilo que não é o próprio Eu, produzindo aquele equilíbrio dinâmico capaz de manter afastado o egocentrismo.

Nunca seremos demasiado pequenos ou demasiado velhos para aprender a viver a dinâmica da dádiva. Os pais e os educadores têm um importante papel a desempenhar na sua aprendizagem e na sua actualização. Lembremos quão difícil é ensinar o que não se vive na primeira pessoa. Os medos, porém, estão sempre à espreita. E se a criança, assim, desaprende a resolver os seus problemas? E se, em lugar de a ajudar a amadurecer, faço dela uma bo¬neca, um bonacheirão, um”bonzinho”em sentido irónico? E se faço com que lhe falte completamente aquele sentido sadio de competitividade que lhe permitirá, amanhã, progredir na vida?

Estas e outras perguntas, mais do que lícitas, podem colocar-se em cada momento. Lembremos: é preciso ensinar a criança a resolver os seus problemas; não fazer dela uma molengona. É preciso estimular nela aquele senso sadio de competitividade que lhe permitirá progredir no trabalho, e, em geral, na vida. Mas tudo isto não lhe servirá de nada, não a gratificará, se não for acompanhado por aquela força centrífuga que a impelirá para fora de si, permitindo-lhe realizar os três valores-base da vida: a criatividade, a capacidade de amar e de ser amada, e a capacidade de suportar o sofrimento e de lhe atribuir um sentido, um significado. Cada um de nós é chamado a realizar estes valores, e as verdadeiras falências existenciais são seguramente causadas pelo seu entorpecimento.

J. C. Mills e R. P. Crowley notam que «há muito tempo que os jogos de mesa oferecem vários modos de passar agradavelmente o tempo com amigos ou em família. Quantos de nós», continuam eles «que se ocupam das crianças, dão a destes jogos um novo uso terapêutico? Os jogos estratégicos, como o xadrez ou as damas, podem ajudar a estabelecer uma relação num modo não ameaçador e dão, ao mesmo tempo, informações preciosas sobre a fonte de resistência, o medo e as perturbações do carácter».

Se a responsabilidade dos pais é grande, os instrumentos a utilizar para alcançar a finalidade são simples, ao alcance da mão: ensinar a lealdade durante um jogo, ensinar a partilhar com os outros o material que se possui ou a plasticina, ensinar até a participação nos conteúdos mais interiores dos outros, são exercícios para que a dinâmica do jogo possa desenvolver-se na criança, e para que, amanhã, esta possa chegar a um patamar de estabilidade e de fidelidade. Deste modo se cria a base para um futuro que verá a criança movimentar-se entre as suas incógnitas e os seus altos e baixos, tornando-se, mais tarde, uma pessoa madura, grata a quem soube ensiná-la a fazer prevalecer a sua força centrípeta em direcção às profundidades do Eu.

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