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Histórias em Português

Um blog onde os Contadores d’Estórias colocam histórias de que gostam e que querem partilhar. Sirva-se e dê-lhes vida! Quer também recebê-las por email? Procura histórias sobre um algum tema ou para um fim específico? Escreva-nos! estorias.em.portugues(at)gmail.com Os nossos objectivos são meramente pedagógicos, sem qualquer interesse financeiro.

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Assustador, não é?

Outubro 25, 2007 por contadores.destorias

Assustador, não é?

Podes prolongar as cenas.

Os diálogos foram pensados como deixas. Inventa mais algumas situações com os teus irmãos ou amigos antes de representares a cena final.

Personagens:

Tia Lençol Enrugado ( Fantasma de idade madura.)

Fantasminha (B isneto.)

Telechico ( Alguém que está sempre a ver televisão.)

Mal-Cheiroso e Rico ( Vendedores de automóveis.)

Ele e Ela (Um tímido casal de namorados.)

Outras personagens que tu inventares.

CENA I

Fantasminha ( Queixando-se.) – Hiiii, hiiiii, tia Lençol Enrugado, hoje tenho um teste horrível à minha espera! Um exercício prático muito difícil, hiii! Escreva-me uma justificação por humidade nocturna com perda de voz, ou por nódoas contagiosas! Por favoooooor!

Tia Lençol Enrugado – É um exercício de que género?

F. – Vou ter de andar por fora durante duas horas, de preferência em zona habitada e em pleno anoitecer! Eu não consigo! E tenho de conseguir assustar pelo menos seis pessoas!

Tia L. E. – Anda lá, não chores tanto. Assim gastas as tuas forças ainda antes de começares. Só se chora assim diante do público. Então, de que é que tens medo, Fantasminha? De não acertares logo com a dose certa para assustares? Que as pessoas desmaiem imediatamente? Bem, começa devagarinho. Primeiro só com uns suspiros…

F. ( Começa a suspirar baixinho para treinar.) – Ui, ui, ai, ai… Assim, tia Lençol Enrugado?

L.E. – Óptimo, Fantasminha, muito bem! Cabeça erguida, que tu consegues! Coragem! Eu acompanho-te um bocadinho até perto da cidade. A minha teia 230 GTI está à porta.

F. – A tia podia ficar por perto?

L.E. – Se isso te sossega, meu amorzinho…

CENA II

Telechico (Olhos fixos na televisão a mordiscar bolachas. Vai exprimindo a sua opinião sobre o que está a ver com resmungos, bufos e grunhidos.) – Hum!, Rrr! Pfff! Humpf!

F. ( Esgueirando-se para dentro) – A minha primeira vítima! Está sozinha, que maravilha! E a luz agradável daquela caixa, ali, aquele azul medonho, é a iluminação ideal para um fantasma ao entardecer. Bem, ao trabalho! (suspira baixo em vários tons de voz.)

T. ( Não se distrai uma única vez. Os humpf continuam mas para a televisão.)

F. – Ele é surdo? (Assombra mais alto, faz mais ruídos, puxa a manga de Telechico, passa-lhe as mãos em frente da cara.)

T. – O que é isto? Problemas com a imagem? ( roda o botão).

F. – Uuui, uuuu… Não fez nada…  Uuuu, uuuu! Que esquisito! Eu a esforçar-me tanto e ele nem mexe uma orelha! Estou a sentir-me esquisito. Estou a… exacto, como é que estou a sentir-
-me? Será que ele está
mesmo vivo? (Toma o pulso de T.) Sim, vivo está. Mas é um vivo esquisito. Se olhar mais tempo para ele, até fico com pele de galinha. Sinto-me a enfraquecer… deve ser assim que um humano se sente quando está aterrorizado…

T. ( Grita de repente.) – Até que enfim! Dá-lhe! Outra! Zás!

F. ( A tremer.) – Tia Lençol, estou com tanto medo!

(A tia entra com um rodopio e leva o sobrinho com ela.)

F. – Eu já adivinhava! Não sou capaz!

L. E – Ora, quem é que desiste logo à primeira?

CENA III

Os comerciantes Mal-Cheiroso e Rico estão a examinar os seus livros de contabilidade e murmuram números. Fantasminha luta pela sua atenção.

Mal-Cheiroso – …Só subiram mais 0,9%…

Rico – 3000, 4000, 5000…

M.C. – Precisamos de melhores frases publicitárias. Por exemplo: “Um terceiro automóvel para os seus tempos livres!”

Rico – l milhão, 2 milhões…

F. – Eles não me sentem! Se nem um fantasma verdadeiro sentem… Uuuu, uuuu, uuuu!

Rico ( Apontando para o livro.) – A concorrência anda aqui pelo meio a assombrar-nos…

M. C. – Os Japoneses, com o seu novo modelo de mini-
-carro para a pré-escola… uma coisa de
meter medo… (Olham os dois fixamente para o tecto como se estivessem a ver um fantasma.)

F. – Está aí alguém? Por favor, está aí mais alguém? Colega, mostre-se, por favor… Ui… estou a sentir-me como há pouco… não aguento isto… não consigo mais… Tia Lençol… ( A boa tia lá aparece.) Outra vez! Eu sou um caso perdido!

L.E. ( Leva o pequeno com ela.) – Não, claro que não és! Um fantasma nunca deve perder a esperança!

CENA IV

Conforme imaginares. Que tal duas senhoras chamadas Corta e Casaca, que indicam diligentemente o caminho às pessoas, ou que falam uma com a outra, ou então, que tal a Dreamy, a rapariga nova e bonita que, a cantar e a dançar, dedica toda a sua atenção ao walkman?

CENA V

(Num banco de jardim, um tímido casal de namorados. Fantasminha desliza até eles.)

F. – São a minha última esperança! ( Suspira baixinho.)

Ele – Disse alguma coisa, menina Carlota?

Ela – Nnnão… pensei. No máximo, pensei…

Ele – Por favor, volte a pensar!

F. – ( Suspira alto. )

Ela – Suspira assim porque está triste, Sr. Silva?

Ele – Só suspiro por dentro, menina Carlota! (Fantasminha suspira.)

Ele e Ela: – Ai! (Aproximam-se um do outro)

(Fantasminha geme e suspira alto.)

Ela – Está aqui… o que é isto… aqui à nossa beira? Sente como estou a tremer?

F. ( Aliviado.) – Bem, até que enfim! Uuuu!

Ela – Joaquim, está aqui um fantasma!

Ele ( Puxa-a para si de forma que ela não ouve nem vê.) – Eu tomo conta de ti, Carlota, para que não te aconteça nada… Estou aqui… estou aqui…

F. ( Tenta continuar a assustá-los mas os dois estão demasiado absorvidos.) – Mesmo assim… para um começo não estive nada mal!… Ui, como eles estão com medo!… (quase carinhoso .) Estão tão embrenhados no seu medo… Oh, estão tão vivos… continuam com medo. Posso deixá-los à vontade. A tia Lençol vai elogiar-me!

(Dirigindo-se ao público.) Então, e vocês, se um dia vos fizer uma visita? Vou conseguir assustar-vos? Ao menos um bocadinho? Até estou com curiosidade. Adeus! Uuuu!

(Se o público for simpático, responde ao cumprimento com uuuu!)

Tradução e adaptação

Lene Mayer-Skumanz (org.)

Hoffentlich bald

Wien, Herder Verlag, 1986

Publicado em comportamentos, contadores, crianças, dia das bruxas, educação, escola, fantasia, histórias, imaginação, pedagogia, sociedade | Tagged fantasmas, sustos, teatro | No Comments Yet

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