In: Notícias Magazine
04.Fev.2007
A guerra é o fenómeno mais mortífero e injusto para a população civil, designadamente para as crianças. Para além das consequências imediatas, muitos outros efeitos e problemas estão associados a crescer e viver num ambiente hostil, onde matar e estropiar passou a ser regra, se não mesmo lei.
A guerra tem estado aí, em força. As imagens provenientes de Darfur, Iraque, Afeganistão. Médio Oriente ou Somália, que constantemente estão a ser transmitidas, mostram ao mundo, às famílias e as crianças onde o belicismo pode chegar, designadamente o show de armas novas, destrutivas, soldados a avançarem e a despedaçarem «inimigos», etc.
O circo está montado e, na altura em que os leitores derem conta deste artigo, já muita coisa se terá passado, e já o execrável ditador Saddam não existe.
Não vou emitir juízos de valor nem comentários pessoais sobre a justeza, a necessidade e a adequação temporal das guerras, nem sequer referir os seus eventuais objectivos e razões. Sublinho, contudo, um gene que recebi de algum antepassado e que me leva a sentir urticária quando penso em regimes castrenses, salamaleques militares, orçamentos bélicos ou dia-a-dia em quartéis. Mas adiante.
Os adultos brincam às guerras… e as crianças?
Uma coisa fica, no meio de tudo isto: as crianças são apanhadas no meio da guerra, no meio de um conflito para o qual não são ouvidas nem achadas.
Mesmo antes do Iraque, todos nós temos sido confrontados, sistematicamente, telejornal após telejornal, com imagens de Israel ou do Afeganistão, de Angola ou do Paquistão, ou de tantos outros países. Todos ficamos com certeza impressionados com o drama das populações civis – sejam as casas destruídas na Tchechénia, as filas de refugiados da Krajina, ou as enfermarias dos hospitais palestinianos. Ainda nos lembramos certamente das imagens de mães e pais com crianças ao colo, sem saber para onde ir, sem haveres, sem tecto e, sobretudo, sem saber o porquê de tudo isso.
Que dizer do grande número de crianças feitas soldados, de arma na mão e com o objectivo de liquidar o maior número de inimigos?
Um segundo aspecto são os problemas de saúde que surgem nas crianças vítimas da guerra, e que são muitos, desde as doenças infecciosas aos ferimentos resultantes das balas, estilhaços e explosões. Outro risco é a desnutrição e as carências vitamínicas que resultam da má nutrição e da escassez de alimentos essenciais. Por outro lado, diminuem muito os cuidados às crianças com doença crónica e a vigilância normal da saúde – vacinas, rastreios, testes, etc., dado que o sistema de saúde entra em colapso e os profissionais ficam mobilizados para outras tarefas mais urgentes. Além do mais, torna-se perigoso circular nas ruas e fazer ávida normal.
De grande importância são as questões psicológicas, desde o medo e a sensação (real e justificada) de insegurança, até à chamada «síndroma de stress pós-traumático», com graves consequências que podem perdurar meses, anos ou até a vida toda. As brincadeiras passam a ser relacionadas com a própria guerra e tudo o resto é esquecido.
Outro grupo de perturbações diz respeito à família, aos amigos e à comunidade em que a criança está inserida, e que muitas vezes deixa de existir como tal. A perturbação no dia-a-dia, resultante dos riscos que se correm em cada segundo, agravada pela ausência do ou dos pais, a morte de um deles ou de ambos, o desalojamento e a procura de refugio muitas vezes depois de grandes caminhadas e de fugas extenuantes, a integração em famílias desconhecidas, achegada por vezes a outros países com costumes e tradições diferentes com a consequente discriminação, a falta de um dia-a-dia normal, com ida à escola, brincadeiras na rua e a rotina necessária a um crescimento harmonioso – tudo isto são razões que levam a sentimentos de desconfiança, inimizade, agressividade e falta de comunicação. Muitas vezes a situação é agravada pelos actos de selvajaria das forças ocupantes, desde violações a homicídios, cometidos na pessoa das crianças ou em frente delas.
Daqui resulta uma característica comum às crianças vítimas da guerra – a perda da inocência. E essa perda vem também bater à porta das crianças não envolvidas, directamente, no teatro da guerra. Com a presença constante dos meios de comunicação e com a realidade a entrar-nos pela casa dentro, a qualquer hora, sem escamotear as questões, é impossível transmitir às «nossas» crianças a imagem de um mundo cor-de-rosa – nem isso seria possivelmente desejável ou pedagógico.
Sabemos que, por muito resistente que seja a espécie humana e por muitos mecanismos de defesa que tenha, a infância das crianças fica comprometida para sempre e o resultado é a geração de «adultos precoces», desenraizados e desencantados, imunes a quaisquer promessas e habituados a resolver por si as situações problemáticas, mesmo tendo de recorrer a expedientes menos adequados, designadamente a própria violência.
Pouco se fala das crianças vítimas da guerra, pelo menos de uma forma objectiva e factual. Vemo-las nas filas angustiantes dos refugiados, vemo-las nos escombros dos prédios bombardeados, vemo-las a vaguear como zombies nas cidades em ruínas.
Que tal explicar às crianças portuguesas que os seus pais ou avós passaram por aquilo… e sobreviveram, embora com traumas…
Quando as crianças portuguesas estão a ver o telejornal ou a folhear alguma revista com artigos sobre a guerra, aproveitemos para, de uma maneira didáctica e sem os assustar, falar directamente das razões de ser daquelas imagens, para que entendam que os conflitos devem ser resolvidos por meios pacíficos e através do diálogo, com recusa de qualquer filosofia bélica, racista, xenófoba ou do culto da superioridade de qualquer país ou raça. Afinal, estivemos envolvidos directamente durante 13 anos numa guerra. Muitos dos países que surgiram na sequência dessa guerra continuaram em guerra durante anos, e contactamos diariamente com os seus refugiados e desalojados. Não podemos é fingir que desconhecemos o assunto e permanecer insensíveis a tudo isto, como se não tivéssemos nada a ver com o caso.