Oração envergonhada

Oração envergonhada

Em criança, quando ia à catequese em Roanoke, na Virgínia, eu costumava fazer perguntas curiosas como «Os anjos conseguem voar no céu, mas como é que as nuvens conseguem segurar pianos?». Normalmente, obtinha do professor uma resposta confusa sobre como isso não tinha importância nenhuma. O que era importante era que Jesus tinha morrido pelos nossos pecados e que, se O aceitássemos como nosso salvador, depois da morte iría­mos para o céu, onde teríamos tudo quanto desejássemos. Algumas crianças do meu grupo perguntavam-se como é que alguém se deixara pendurar numa cruz com pregos cravados nas mãos para ajudar o próximo; eu perguntava-me como é que o Pai Natal sabia o que eu queria para o Natal, mesmo sem nunca lhe ter escrito uma carta. Talvez tivesse um gravador escondido em todas as chaminés do Mundo.

Esta inclinação prática do espírito nunca me abandonou, e um dos resultados foi nunca ter conseguido acreditar em Deus. A maioria dos outros não-crentes que conheço parecem sentir-se libertados ou orgulhosos da sua opção, como se, por um acto de inteligência, tivessem recusado comprar banha-da-cobra. Mas, com o correr dos anos, eu comecei a sentir que me faltava algo. Os meus amigos e familiares que se apoiam em Deus – os verdadeiros crentes, não os que se limitam a ir à igreja – têm um espírito mais aberto. Quando caminham ao longo de um ribeiro, não vêem apenas água a fluir sobre rochas, ficam extasiados com essa imagem. Antevêem um reino de esperança para além deste mundo. Eu não vejo mais do que um regato rumorejante. Não capto a mensagem.

O John, meu marido, que foi criado numa família católica praticante e ajudou à missa, tem também os pés bem assentes nesta terra. Por isso, e fora termos baptizado o nosso filho para contentar as famílias, deixámos a fé de parte. Eu supus que tínhamos ambientado o nosso filho de 4 anos, Luke, ao terreno espiritual árido em que vivíamos. Quando o meu marido foi para o Iraque por um período de alguns meses, pensei que eu e o Luke estávamos no mesmo barco, eu uma mãe subitamente só, ele um rapaz nervoso cujo pai estava em zona de guerra. Quando falei com o John ao telefone pela primeira vez, estava trémula de angústia; mas o Luke permanecia tagarela e calmo. Sentia a falta do pai, mas não estava assustado. Quis ver fotografias do pai empunhando uma AK-47. Concluí que era demasiado novo para compreender.

Uma noite, estávamos os dois a ver televisão e de repente começou a passar uma história de um soldado que regressara a casa em licença de casamento. Tentei mudar de canal, mas o Luke queria ver, por isso deixei, pensando: «É só um casamento. Não há problema.» Mas o soldado começou a falar do medo que sentia de voltar para lá, de como a situação era perigosa no Iraque. Pelo canto do olho, vi o Luke unir as mãos e inclinar a cabeça durante uma fracção de segundo. Surpreendida, disse-lhe: «O que é que estás a fazer, meu querido?» Não respondeu, mas pouco depois repetiu o gesto. Admirada, disse-lhe: «Não és obrigado a contar-me, mas, se quiseres, sou toda ouvidos.»

Ele acabou por confessar: «Estava a rezar uma pequena oração pelo pai.» «Isso é maravilhoso, Luke», murmurei, embaraçada com a ideia de que nós ou o nosso mundo moderno tivéssemos de algum modo feito com que o Luke se sentisse envergonhado por rezar pelo pai na sua própria casa. Foi como se a semente da fé tivesse germinado no nosso pequeno filho e ele estivesse agora a mostrar que podia mover montanhas. Não numa igreja ou a observar as estrelas, mas enquanto percorríamos os canais de televisão. Tive inveja dele. O Luke não estava preocupado porque acreditava que Deus lhe havia de devolver o pai são e salvo. Só eu estava atormentada.

Para uns, a fé é uma dádiva; para outros, é uma escolha, uma questão de disciplina espiritual. Tenho um amigo que foi educado na fé e que crê. Mas a fé tem vacilações: teve de lutar para mantê-la e transmiti-la aos filhos. Outra amiga minha nunca vai à igreja porque é mãe solteira e não tem dinheiro para a gasolina. Mas um dia contou-me que estava a lavar laranjas e que o sol se reflectia nelas. Descascou uma, o cheiro subiu-lhe ao rosto e foi como se tivesse recebido o Espírito Santo. «Entranhou-se-me até aos ossos. Ergui as mãos ao céu e senti-me cheia de amor.»

Não sendo teóloga, nem sequer crente, não me acho na posição de propor teorias, mas a minha é esta: as pessoas que recebem a fé directamente, como uma combustão espontânea da alma, têm menos dúvidas. Foram incendiadas por uma fé mais inabalável do que aquelas a quem a fé foi ensinada.

Depois de ter visto o Luke a rezar pelo pai, ausente no Iraque» perguntei-lhe quando tinha começado a acreditar em Deus. «Não sei», respondeu-me. «Sempre soube que Ele existe.»

O meu marido regressou são e salvo do Iraque em Outubro de 2003, mas se algo lhe tivesse acontecido, o Luke teria sabido que o pai estava no céu à nossa espera. Não sofre de um vazio como aquele pai angustiado do Evangelho segundo S. Marcos: “Jesus disse-lhe: Tu não crês, mas tudo é possível para aquele que crê.” E o pai da criança soltou um grito e disse por entre lágrimas: “Senhor, eu creio; ajuda-me tu a crer ainda mais.”

Para o nosso filho Luke, todas as coisas são possíveis. No fim da vida, juntar-se-á no céu aos seus heróis e aos seus entes queridos, a mãe e o pai, o fundador do país, os avós e os super-heróis. As orações do Luke podem estender-se ao infinito e mais além, mas eu sei que estou limitada a uma: «Senhor, ajuda-me a crer.»

Dana Tierney

Selecções do Reader’s Digest

Lisboa, Outubro 2004

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