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Ética e Cultura; Exclusão e Solidariedade – Thomas De Koninck

08 por contadores.destorias

Thomas De Koninck
A nova ignorância e o problema da cultura
Lia, Edições 70, s/d
Excertos adaptados

 

Ética e Cultura

Quando se trata da «crise económica», o sofisma dominante consiste também em fazer como se ela nada tivesse a ver com a chamada «crise de valores». John Saul denuncia com vigor e razão «este estado de infantilidade em que nos instalamos», qualificando como «acto de uma inconsciência tão profunda que se aproxima da estupidez» a submissão não criticada ao economismo, a «uma nova mitologia económica, que depende ela própria de uma glorificação da economia de serviço, de uma legitimação da especulação financeira e da canonização das novas tecnologias de comunicação».

Não que o mercado esteja em causa quanto à sua utilidade, que se compara à da linguagem ou do cálculo, como um instrumento da sociedade. Dependente de si mesmo, numa sociedade desigual, ele só pode servir a desigualdade. «Quando o mercado está entregue à sua própria legalidade, só tem consideração pelas coisas; não tem qualquer consideração pelas pessoas nem pelos deveres de fraternidade ou de piedade, nenhuma também pelas relações humanas originais, próprias às comunidades de pessoas», observava já Max Weber. De acordo com Ignacio Ramonet, o mercado é, porém, apenas o segundo paradigma que estrutura doravante a maneira de pensar. O primeiro paradigma é a comunicação. Além disso, «apenas se desenvolvem intensamente as actividades que possuem quatro atributos principais: planetário, permanente, imediato e imaterial. [Daí o sistema ter a sigla "PPII".] Esta tetralogia é a ponta de lança da globalização, fenómeno fundamental e determinante da nossa época».

A manipulação dos signos e símbolos pelos grandes meios de comunicação social, pelas sondagens e pela publicidade, assegura um novo controlo dos espíritos, que torna insólito e impossível de perceber qualquer evocação daquilo que contradiz o consenso não criticado que ela gera. À semelhança de Édipo, diríamos: «Ah! Será que podemos tolerar ouvir falar assim?» (Édipo Rei, v. 429), por tão desagradável ser a atenção ao concreto, ao pensamento crítico. A oligarquia por detrás da máscara da democracia, tão bem sublinhada por François de Bernard, encontra aqui, sem dúvida, a sua mais flagrante ilustração, porque aos comandos deste consenso «democrático», o que descobrimos a não ser um punhado de gigantes da comunicação? No centro, o quê a não ser o dinheiro?

O sofisma central consiste em separar a ética e a cultura, como se uma cultura sem ética não fosse uma contradição nos termos, raiando a barbárie. Devíamos ter aprendido isto pelo menos com Auschwitz, até com o «notável século» do qual acabámos de sair, que «recuou quase até ao infinito os limites que a natureza opôs desde sempre à acção das ciências e das técnicas»; mas que «terá também recuado os limites da barbárie e viu perpetrar-se um tipo de crime desconhecido do passado, um crime sem exemplo nem precedente, o crime contra a humanidade» ( 1). Claude Julien (In Culture : de la fascination au mépris, pp. 15-17) lembra que

[...] muito mais do que por medo face à desordem económica e por receio do bolchevismo, a chegada do nazismo ao poder começou por ser possível devido a uma abdicação cultural. [...] Recorreu a uma falsa ciência, a uma falsa biologia, a uma falsa antropologia para tentar fundamentar cientificamente a teoria da superioridade de uma raça. [...] A falsa cultura invocada pelo nazismo traduziu–se em aberrações, em crimes contra o espírito. [...] O nazismo foi, sobretudo, o resultado de uma traição aos mais elevados valores culturais.

«Exigir que Auschwitz nunca mais se repita é a principal exigência de toda a educação», escrevia Adorno, num texto realmente profético. «Este é o tipo de barbárie contra a qual se ergue toda a educação. Fala-se da ameaça de uma recaída na barbárie. Mas não é uma ameaça, Auschwitz foi essa recaída; mas a barbárie persiste enquanto perdurarem as condições que favoreceram aquela recaída. É aqui que está todo o horror.» Quando reconheço a humanidade do outro, faço-o graças ao conhecimento anterior desta humanidade que é, afinal de contas, aquele que tenho da minha própria humanidade. Bárbaro é assim, acima de tudo, quem é perverso ao ponto de ignorar tanto a sua própria humanidade como a dos outros. Todo o problema consiste em ele não saber que o ignora.

(1) André Frossard, Le crime contre l’humanité (1987), Paris, Livre de poche, 1989, p. 11. «O crime contra a humanidade é matar alguém com o pretexto de ter nascido» (p. 96). «Existe crime contra a humanidade quando a humanidade da vítima é negada, claramente e sem apelo» (p. 99). Cf. Vassili Grossman: «”Tudo aquilo que é desumano é insensato e inútil.” Sim, neste tempo de triunfo total da desumanidade, tornou-se evidente que tudo aquilo que foi criado pela violência é insensato, inútil, sem alcance, sem futuro» (Tout passe, Julliard e L’Age d’homme, 1984; citado em conclusão da obra Le livre noir du communisme, de Stéphane Courtois et al., Paris, Robert Laffont, 1997).

Ora, se Nietzsche tinha razão na sua previsão – pronunciada há mais de um século (1887) – de dois séculos vindouros de niilismo (até hoje, como não lhe dar razão?) e se estava certo ao definir o niilismo como o fez – «[...] falta o sentido, falta a resposta ao “Porquê?”; o que significa o niilismo? Significa que os valores mais elevados se desvalorizam» –, é lícito perguntar-nos justamente se estaremos tão longe da barbárie nos nossos princípios como nos factos, sendo estes inegáveis. Porque o termo «niilismo» designa simplesmente o facto de já só haver «valores», no sentido em que o dinheiro, por exemplo, é um «valor». Relativismo e niilismo estão intimamente ligados: a justiça, a amizade, a liberdade, a paz, o humano, o bem, o absoluto, até mesmo Deus, tornam-se meros «valores» entre tantos outros. Tudo está ao mesmo nível e já nada sobressai. «Em que consiste a barbárie», perguntava Goethe, «senão precisamente no facto de ignorar o que sobressai?». O grande problema é que ela pensa saber e não sabe. Como sair disto?

Exclusão e Solidariedade

Nos excertos da Declaração Universal dos Direitos do Homem de 1948, dois pontos são particularmente evidentes:

a) Reconhece-se que o que funda a igualdade dos direitos humanos e o seu carácter inalienável (literalmente, que não se pode retirar a ninguém) é a dignidade de todos os membros da família humana sem excepção.

b) Reconhece-se que o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo é a dignidade humana.

Mas qual é, em rigor, o sentido de «dignidade humana»? Existe a descoberta, o reconhecimento do simples facto da dignidade da pessoa humana e de o respeito único que ela merece, na história e na consciência dos humanos, que precede as doutrinas. Neste sentido, pode falar-se de um primado da ética sobre a própria teoria e sobre a elaboração dos seus fundamentos. Devemos estar tanto mais atentos a esta anterioridade da ética visto que o século XX se singularizou pela extensão dos assassínios, dos genocídios, das torturas perpetradas sob a caução de ideologias e de abstracções que desprezam os seres reais. «O assassínio é a questão», escrevia Camus. A infernal «lógica» da exclusão é a mesma dos reducionismos atrás denunciados. Criaram-se paradigmas a partir de definições ou de concepções apriori do «homem», chamadas a legitimar uma forma ou outra de exclusão. O nazismo forneceu uma perfeita ilustração disso.


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