Texto de Ana Gomes
In: Pública – 15 Abril 2007
Vestidos de igual, sentados lado a lado na carteira da escola, a frequentar a mesma actividade desportiva, a brincar com brinquedos idênticos. É muito frequente ver os gémeos embrulhados nesta redoma da semelhança, com os pais, família e educadores a apostarem tanto nas parecenças entre as crianças que acabam por descurar as características individuais de cada um. Porque mesmo quando um parece o espelho do outro, os temperamentos e interesses podem ser diferentes.
A mensagem do Grupo Gémeos, associação portuguesa dedicada ao fenómeno da gemelaridade, é a de resistir à tentação do tratamento dois em um e investir na individualidade. Os benefícios deste trato pessoal e único com cada gémeo são significativos no que se refere à construção da sua identidade enquanto ser único e independente.
“Cada gémeo deverá crescer como indivíduo, capaz de funcionar independentemente do outro, ainda que valorizando o relacionamento com ele”, defende Isabel Seara, vice-presidente do Grupo Gémeos. A mensagem desta associação a todos os adultos que rodeiam as crianças gémeas é a de estimular a individualidade e estabelecer claramente as diferenças entre os bebés desde o nascimento. Usar roupas distintas, ou pelo menos de cores diferentes, ter brinquedos diversos ou dormir em berços separados são alguns dos conselhos da responsável do Grupo Gémeos. Para Isabel Seara são “estes pequenos gestos do quotidiano” que marcam a diferença no estímulo da individualidade. Cabe aos pais fazerem desta recomendação uma regra e transmitirem-na aos diversos adultos que desempenham um papel na vida das crianças gémeas.
Num folheto informativo do Grupo Gémeos, a associação defende ainda que “desde muito cedo, deve incentivar-se que os gémeos sejam separados por alguns momentos (embora possa ser um curto período, dependendo da sensibilidade e da reacção em cada caso)”. Até pela experiência da vida intra-uterina, as crianças com irmãos gémeos encaram com alguma estranheza a vivência da distância do outro. Enquanto que a ligação entre irmãos é um processo natural, a separação deve ser treinada. Em nome da criação de tempos de alguma solidão, em que a criança consiga explorar e desenvolver interesses, desejos e comportamentos que são só seus. Isabel Seara alerta para a crença, defendida por inúmeros psicólogos, de que é necessária uma certa dose de solidão para um crescimento salutar. “No fundo, os gémeos sentem frequentemente que nunca estão sozinhos. É quase como se houvesse uma perda do seu direito à privacidade”, acrescenta.
Outra tendência que deve ser contrariada pelos pais, familiares e educadores é a de referir-se às crianças como “os gémeos”. O investimento na individualidade passa também pela “regra do chamamento pelo nome próprio”, explica Isabel Seara. Uma regra a ser seguida não só pelos pais mas também nas creches e jardins-de-infância. Uma das sugestões da vice-presidente do Grupo Gémeos para os pais é “bordar o nome de cada um no bibe” de maneira a travar a tentação de alguns educadores de recorrer à chamada colectiva sob o apelido de “os gémeos”. Mesmo os nomes escolhidos não devem promover a confusão das identidades, chamando João Pedro a um e Pedro João ao outro, por exemplo.
A associação alerta para os perigos de lidar com os gémeos como uma entidade una e não como indivíduos distintos. O desejável é não reforçar “mecanismos de dependência que os gémeos estabelecem entre si” e educar para que cada irmão seja “capaz de fazer as suas próprias escolhas e de se realizar plenamente”, explica. Em vez de subjugar as diferenças num esforço de uniformização, o ideal ê que cada criança tenha a possibilidade de viver experiências distintas, ditadas também pelas suas preferências e interesses pessoais. Um conselho que ganha forma ao nível da ocupação dos tempos livres ou das actividades extracurriculares.
O desenvolvimento dos gémeos e dos bebés únicos é praticamente igual excepto no que se refere à linguagem, área onde os pares de irmãos podem registar algum atraso. Esta situação deve-se ao facto de os pais terem menos tempo para falar exclusivamente com cada filho e de os deixarem mais frequentemente entregues a “conversas” entre um e o outro. O estímulo para a aprendizagem é então menor tendo em conta que as crianças se encontram no mesmo estádio de crescimento. “É assim que se desenvolve, por vezes, a famosa ‘linguagem secreta’ dos gémeos, também chamada de criptofasia”, explica um folheto da associação.