Saber Cuidar – Figuras exemplares de cuidado III – L. Boff

Leonardo Boff
Saber Cuidar. Ética do Humano – Compaixão pela Terra
Petrópolis, Ed. Vozes, 1999
Excertos adaptados

I. Saber Cuidar. Ética do Humano – Compaixão pela Terra – L. Boff
II. Sintomas da crise – L. Boff
III. Saber Cuidar – Figuras exemplares de cuidado – L. Boff

 

Figuras exemplares de cuidado

O modo-de-ser cuidado só convence verdadeiramente quando se transforma em saga na biografia de pessoas e modela situações existenciais.

O cuidado das nossas mães e avós

Existem figuras que concentram e irradiam cuidado de maneira privilegiada: as nossas mães e as mães das nossas mães, as nossas avós. Não precisamos de pormenorizar essa experiência. Ela é fundamental em cada pessoa, pois o primeiro continente que a criança conhece é a sua própria mãe. Ser mãe é mais do que uma função; é um modo-de-ser que engloba todas as dimensões da mulher-mãe, o seu corpo, a sua psique e o seu espírito. Com o seu cuidado e carinho, a mãe continua a gerar os filhos e as filhas durante toda a vida. Mesmo que tenham morrido, sempre permanecerão no seu coração materno. Nos momentos de perigo, são invocadas como referência de confiança e de salvação. É através das mães que cada um aprende a ser mãe de si mesmo, na medida em que aprende a aceitar-se, a perdoar as próprias fraquezas e a alimentar o sonho de um grande útero acolhedor de todos. Representam também o modo de ser mãe as educadoras e os educadores que se devotam ao crescimento humano, mental e espiritual dos educandos, as enfermeiras que cuidam dos seus doentes e tantas outras pessoas que anonimamente se desvelam no cuidado de alguém.

Jesus, um ser de cuidado

Jesus de Nazaré, ao lado de Buda, é uma das figuras religiosas que mais encarnam o modo-de-ser-cuidado. Revelou à humanidade o Deus-cuidado, experimentando Deus como Pai e Mãe divinos que cuidam de cada cabelo da nossa cabeça, da comida dos pássaros, do sol e da chuva para todos (cf. Mt 5,45; Lc 21,18). Jesus mostrou cuidado especial com os pobres, os famintos, os discriminados e os doentes. Enchia-se de compaixão e curava a muitos. Facto inusitado para a época, associou a si várias mulheres como discípulas (Lc 8,2-3). Cultivou um amor terno para com as amigas Marta e Maria (Jo 11,20-28; Lc 10,38-42).

Fez da misericórdia a chave da sua ética. É pela misericórdia que os seres humanos chegam ao Reino da Vida; sem a misericórdia, não há salvação para ninguém (Mt 25,36-41). As parábolas do bom samaritano que mostra compaixão pelo caído na estrada (Lc 10,30-37) e a do filho pródigo acolhido e perdoado pelo pai (Lc 15,11-32) são expressões exemplares de cuidado e de plena humanidade.

Morrendo na cruz, cuida dos ladrões crucificados ao seu lado e cuida de sua mãe, entregando-a aos cuidados do discípulo predilecto João (Jo 19,26-27). Jesus foi um ser de cuidado. O evangelista Marcos diz com extrema finura: “Ele fez bem todas as coisas; fez surdos ouvir e mudos falar.” (Mc 7,37). Teve cuidado com a vida integral.

Francisco de Assis: a fraternidade do irmão universal

Na tradição ocidental, Francisco de Assis (1182-1226) é visto como uma figura exemplar de grande irradiação. Tudo na sua vida vem urdido de extremo cuidado com a natureza, os animais, as aves e plantas, os pobres e especialmente com a sua amiga e cúmplice, Clara de Assis. Com fina percepção, sentia o laço de fraternidade e de irmandade que nos une a todos os seres. Ternamente, chama a todos irmãos e irmãs: o Sol, a Lua, as formigas e o lobo de Gubbio. As coisas têm coração. Ele sentia o seu pulsar e nutria veneração e respeito por cada ser, por menor que fosse. Nas hortas, também as ervas daninhas tinham o seu lugar, pois, à sua maneira, elas louvam o Criador.

Os biógrafos do tempo, como os co-irmãos Tomás de Celano e São Boaventura, testemunham o impacto de tanta suavidade. Afirmam que Francisco “resgatou a inocência original”, que “é o homem novo, dado ao mundo pelo céu” e que, finalmente, representa “o evangelista dos novos tempos”. Efectivamente, face às demandas da nossa cultura ecológica mundial, reconhecemos a sua grande actualidade. Somos velhos, ainda aferrados ao modo-de-ser do trabalho-dominação-agressão da natureza. São Francisco, no entanto, é verdadeiramente alternativo pelo seu radical modo de ser-cuidado com respeito, veneração e fraternidade para com todas as coisas.

Num pergaminho do convento do Monte Alverne, onde recebeu no seu corpo os sagrados estigmas, conservou-se o seu último adeus às criaturas. Estava extremamente doente e prestes a morrer. Despede-se de Frei Masseo, do irmão rochedo e do irmão falcão. Por fim diz: “Io mi parto da voi con la persona, ma vi lascio il mio cuore”, quer dizer, “eu me aparto de vós como pessoa, mas deixo-vos o meu coração.” Com efeito, o coração de Francisco significa um estilo de vida, a expressão genial do cuidado, uma prática de confraternização e um renovado encantamento pelo mundo. Recriar esse coração nas pessoas e resgatar a cordialidade (cor coração em latim) nas relações poderá suscitar no mundo actual o mesmo fascínio pela sinfonia do universo e o mesmo cuidado com a irmã e mãe Terra, como foi paradigmaticamente vivido por S. Francisco.

Madre Teresa de Calcutá: o princípio misericórdia

Com certeza um dos arquétipos vivos do cuidado essencial é a religiosa católica Madre Teresa de Calcutá (1910-1997). Nascida na Albânia, trabalhou a partir de 1928 na Índia como missionária e professora num semi-internato. Tudo corria no ritmo normal de uma escola, quando, em 1946, viajando de comboio, disse ter escutado uma voz clara que lhe ordenava deixar o convento para ajudar os pobres, vivendo no meio deles. Entendeu-a como chamamento divino. Efectivamente, aos 38 anos de idade, saiu do mosteiro, trocou o seu pesado hábito negro por um prático e barato sari de algodão. Foi morar na periferia miserável de Calcutá, num casebre, vivendo à base de arroz e sal como os pobres, servindo os pobres. À medida que foram chegando seguidoras, fundou a Ordem das Missionárias da Caridade. Além dos três votos de pobreza, obediência e castidade, ela impôs-se um quarto: “Dedicar-se de todo coração e livremente ao serviço dos mais pobres dos pobres.”

Em Calcutá há milhares e milhares de miseráveis que nascem, vivem e morrem na rua. Madre Teresa cuidou logo de fundar a Casa dos Moribundos. Recolhia-os das ruas e levava-os para que pudessem morrer com dignidade. Começava assim uma obra de compaixão e misericórdia que se estendeu por muitas cidades da Índia, do Paquistão e de outros países, sempre com o fito de conferir dignidade e humanidade aos que iam morrendo.

A Ordem das Missionárias da Caridade cultiva um carisma, ligado directamente à ternura vital, o carisma de tocar as pessoas na sua pele, nos seus corpos e nas suas chagas. “Toca-os, lava-os, alimenta-os”, insistia Madre Teresa com as suas irmãs e os muitos voluntários que de todo o mundo acorriam para ajudar em suas obras. Outras vezes dizia: “Dá Cristo ao mundo, não o mantenhas para ti mesma e, ao fazê-lo, usa as tuas mãos.” A sua biógrafa, Anne Sebba, comenta: “A capacidade de tocar, com as suas implicações mais amplas, é especialmente importante na Índia, onde o conceito de “intocabilidade” é tão real; este é o verdadeiro espírito missionário em acção; é mais importante tocar que curar.” A mão que toca, cura porque leva carícia, devolve confiança, oferece acolhimento e manifesta cuidado. A mão faz nascer a essência humana naqueles que são tocados.

Em 1979 ganhou o Prémio Nobel da Paz. Deu-lhe o verdadeiro sentido: “Aceito o prémio em nome dos pobres… O prémio é um reconhecimento do mundo dos pobres.”

Mahatma Gandhi: a política como cuidado com o povo

Uma figura que impressionou todo o século XX é seguramente Gandhi (1869-1948). Nascido na Índia, formou-se em Direito em Londres e trabalhou por mais de 20 anos na África do Sul (1893- 1915) defendendo os imigrantes indianos, vítimas da segregação racial. Em África, entrou em contacto com os ideais anunciados pelo grande escritor russo, Leon Tolstoi (1883-1945), autor dos famosos romances Guerra e Paz e Anna Karenina. Este via a essência da mensagem de Jesus no Sermão da Montanha, no amor, na recusa de toda a violência, na veneração aos pobres e no compromisso com uma vida simples. Tais ideias impressionaram profundamente Gandhi e ajudaram-no a formular a sua própria visão da não-violência e da actuação política como cuidado com o povo. Chegou a fundar uma comunidade rural “Tolstoi”, onde tentou viver esses ideais com outros amigos.

De volta à Índia, entregou-se à tarefa de organizar o povo contra a dominação inglesa. Começou por pregar o boicote aos produtos ingleses, especialmente aos tecidos. Incentivou o retomar da tradição familiar de tecer as roupas em casa. Convocou à desobediência civil. Foi preso inúmeras vezes. Famosa ficou a Marcha para o Mar em 1930. Por um decreto dos colonizadores, os indianos não poderiam comprar sal, a não ser aquele monopolizado pelos ingleses. Gandhi mobilizou milhares e milhares de pessoas que caminharam em direcção ao mar, para dele extrair o sal de que precisavam. Foi preso, mas conseguiu a liberação completa do sal.

Gandhi definia a política como “um gesto amoroso para com o povo”. Por outras palavras, política como cuidado com o bem-estar de todos e ternura essencial para com os pobres. Ele mesmo confessa: “Entrei na política por amor à vida dos fracos; morei com os pobres, recebi os párias como hóspedes, lutei para que tivessem direitos políticos iguais aos nossos, desafiei os reis, esqueci-me das vezes em que estive preso.”

Dois princípios básicos norteavam a sua prática: a força da verdade (satiagra) e a não-violência activa (ahimsa). Acreditava profundamente que a verdade possui em si uma força invencível contra a qual são inócuas as manipulações, as violências, as armas e as prisões. Tinha profunda convicção de que, por detrás dos conflitos, existe uma verdade latente a ser identificada. A função do político é crer nesta verdade, trazê-la à tona para todos e agir em coerência com ela, mostrando-se disposto a suportar os sacrifícios que tal postura comporta. Acreditava firmemente que a verdade, embora tardia, sempre venceria.

A crença na força da verdade levou-o à não-violência activa (ahimsa), que não significa cruzar os braços, mas usar todos os meios pacíficos para alcançar os objectivos almejados. Importa que os meios e os fins tenham a mesma natureza. Fins bons requerem meios bons. Pratica-se a não-violência activa, por exemplo, ocupando ruas, organizando manifestações multitudinárias, fazendo jejuns e preces, e oferecendo o próprio corpo para deter a violência.

Gandhi elaborou um pequeno credo em forma de oração, recitado todos os dias: “Não terei medo de ninguém sobre a terra. Temerei apenas a Deus. Não terei má vontade para com ninguém. Não aceitarei injustiças de ninguém. Vencerei a mentira pela verdade. E, na minha resistência à mentira, aceitarei qualquer tipo de sofrimento.”

Gandhi era profundamente religioso. Conhecia o cristianismo a fundo e tinha grande veneração por Jesus. Mas continuou na sua religião indiana, pois acreditava que todas as religiões, no seu coração, captam e expressam a mesma verdade divina. Tinha profunda convicção de que a prece e o jejum podiam modificar situações políticas. Por isso, sempre que havia algum impasse político maior, punha-se em prece e jejum por semanas. Convocava as multidões a praticar o mesmo. Fazia tremer o Império Britânico e demovia as forças contrárias.

Possuía um profundo cuidado para com todos os seres. Como um mandamento pregava: “Amarás a mais insignificante das criaturas como a ti mesmo. Quem não fizer isto jamais verá a Deus face a face.”

Conclusão

O cuidado e o futuro dos espoliados e da Terra

A categoria cuidado mostrou-se a chave decifradora da essência humana. O ser humano possui transcendência e por isso viola todos os tabus, ultrapassa todas as barreiras e contenta-se apenas com o infinito. Ele possui algo de Júpiter dentro de si; não sem razão, pois dele recebeu o espírito.

O ser humano possui imanência e por isso se encontra situado num planeta, enraizado num local e plasmado dentro das possibilidades do espaço-tempo. Ele tem algo da Tellus/Terra dentro de si; é feito de húmus, donde deriva a palavra “homem”.

O ser humano encontra-se sob a regência do tempo. Este não significa um puro correr, vazio de conteúdos. O tempo é histórico, feito pela saga do universo, pela prática humana, especialmente pela luta dos oprimidos, em busca da sua vida e libertação. Constrói-se passo a passo; por isso, é sempre concreto, concretíssimo. Mas, simultaneamente, o tempo implica um horizonte utópico, promessa de uma plenitude futura para o ser humano, para os excluídos e para o cosmos. Somente buscando o impossível se consegue realizar o possível. Em razão dessa dinâmica, o ser humano possui algo de Saturno, senhor do tempo e da utopia.

Mas não basta suster tais determinações. Elas, na verdade, dilaceram o ser humano. Colocam-no distendido e crucificado entre o céu e a terra, entre o presente e o futuro, entre a injustiça e a luta pela liberdade.

Que alquimia forjará o elo entre Júpiter, Tellus/Terra e Saturno? Que energia articulará a transcendência e a imanência, a história e a utopia, a luta pela justiça e a paz, para que construam o humano plenamente?

É o cuidado que enlaça todas as coisas; é o cuidado que traz o céu para dentro da terra e coloca a terra dentro do céu; é o cuidado que fornece o elo de passagem da transcendência para a imanência, da imanência para a transcendência e da história para a utopia. É o cuidado que confere força para buscar a paz no meio dos conflitos de toda a ordem. Sem o cuidado que resgata a dignidade da humanidade condenada à exclusão, não se inaugurará um novo paradigma de convivência.

O cuidado é anterior ao espírito (Júpiter) e ao corpo (Tellus). O espírito humaniza-se e o corpo vivifica-se quando são moldados pelo cuidado. Caso contrário, o espírito perde-se nas abstracções e o corpo confunde-se com a matéria informe. O cuidado faz com que o espírito dê forma a um corpo concreto, dentro do tempo, aberto à história e dimensionado para a utopia (Saturno). É o cuidado que permite a revolução da ternura, ao tornar prioritário o social sobre o individual e ao orientar o desenvolvimento para a melhoria da qualidade de vida dos humanos e de outros organismos vivos. O cuidado faz surgir o ser humano complexo, sensível, solidário, cordial, conectado com tudo e com todos no universo.

O cuidado imprimiu a sua marca registada em cada porção, em cada dimensão e em cada dobra escondida do ser humano. Sem o cuidado o humano far-se-ia inumano.

Tudo o que vive precisa de ser alimentado. Assim, o cuidado, a essência da vida humana, precisa também de ser continuamente alimentado. As ressonâncias do cuidado são a sua manifestação concreta nos vários aspectos da existência e, ao mesmo tempo, o seu alimento indispensável. O cuidado vive do amor primordial, da ternura, da carícia, da compaixão, da convivialidade, da medida justa em todas as coisas. Sem cuidado, o ser humano, como um tamagochi, definha e morre.

Hoje, na crise do projecto humano, sentimos a falta clamorosa de cuidado em toda a parte. As suas ressonâncias negativas evidenciam-se pela má qualidade da vida, pela penalização da maioria empobrecida da humanidade, pela degradação ecológica e pela exaltação exacerbada da violência.

Não busquemos o caminho da cura fora do ser humano. O ethos está no próprio ser humano, entendido na sua plenitude que inclui o infinito. Ele precisa de se voltar para si mesmo e de redescobrir a sua essência, que se encontra no cuidado. Que o cuidado aflore em todos os âmbitos, que penetre na atmosfera humana e que prevaleça em todas as relações! O cuidado salvará a vida, fará justiça ao empobrecido e resgatará a Terra como pátria e mátria de todos nós.

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