ATURDIMENTO
Como é que poderemos definir o nosso tempo? Qual é o factor que o unifica e o distingue? Claro que é uma época de grandes contradições. Na verdade, atingimos um desenvolvimento tecnológico que era impensável há vinte anos atrás e um subdesenvolvimento – ou melhor, uma degradação ética – igualmente insuspeitável.
Vivemos na época das antinomias. Do máximo bem-estar e da maior insatisfação, da extrema segurança e dos medos incontroláveis, das sofisticadíssimas comunicações planetárias e da incapacidade total de comunicar entre as pessoas.
O nosso tempo é um tempo ditatorialmente democrático, é o tempo do domínio absoluto do ruído, do alarido, dos gritos, da desarmonia sonora que já atinge e envolve os seres humanos de todos os povos e de todas as condições sociais.
Sim, se tenho de pensar num factor unificador da nossa época, é justamente o alarido.
O silêncio morreu e, ao desaparecer, arrastou consigo tudo o que constitui a base do ser humano. Não há silêncio no ar à nossa volta, não há silêncio nos espíritos, nos corações.
O alarido incomoda-nos. Consultando o dicionário, descobrimos que «incomodar» significa: estorvar, impedir, obstar, desviar, distrair.
Sim, há sempre alguém ou alguma coisa que quer desviar-se do silêncio, evitar que contemplemos a nossa realidade mais profunda, impedir que dessa realidade nasça e cresça a nossa evolução como pessoas.
«O que a irrigação é para as plantas, é o silêncio para o aumento do conhecimento» escrevia Isaac de Ninive no século VI d. C. De facto, sem silêncio, não posso conhecer-me, não posso conhecer o outro. Sem silêncio, não posso abeirar-me da fonte do saber.
Mas de onde vem o alarido? Porque é que não há força que consiga contê-lo?
“Não fazes ideia”, dizia-me recentemente uma amiga minha que é neuropsiquiatra infantil, “do número de crianças em idade pré-escolar que me aparecem no consultório com perturbações graves. Crianças que gritam, mordem, dão pontapés, cospem na cara dos avós. Os pais chegam com ar contristado e dizem: ‘Nós não sabemos como lidar com ele, veja o que pode fazer.’ Tratam o filho como se fosse um electrodoméstico de que perderam as instruções, um gadget tresloucado cujos circuitos só um técnico saberá voltar a pôr a funcionar correctamente. É esta a verdadeira emergência dos últimos dez anos”, concluía ela, com tristeza, “mas não provoca alarido e, por isso, ninguém fala do assunto.”
Se quero plantar uma árvore no fim do Inverno, costumo preparar o terreno no início do Outono. Há sempre um factor determinante que contribui para o nascimento e a evolução de um acontecimento novo. Por isso, o século xx, com o seu rasto trágico de ideologias, niilismo, guerras e extermínios, semeou no novo milénio a bomba-relógio do relativismo ético.
O bem e o mal já não são valores reconhecíveis colectivamente, são derivas do sentimentalismo individual. Se o bem não existe em si, passa a ser bem o que me agrada, o que me satisfaz, e, por conseguinte, mal é aquilo de que não gosto, o que me inquieta, me faz sentir mal. Graças ao relativismo ético, a nossa sociedade renunciou à sua função educativa. A família não educa, a escola não educa, o contexto civil não educa.
De facto, educar significa conduzir, apontar um caminho, mas, para isso, haveria que saber o rumo a seguir. Como se pode apontar um caminho, se a vida é um vaguear sem destino, se não há limites a respeitar, horizontes a atingir?
A tarefa principal dos pais modernos parece ser apenas a de não criarem obstáculos (que poderiam provocar traumas incuráveis), não estabelecerem limites (para não correrem o risco de cortar as asas à natural criatividade infantil). Pensa-se que será a sabedoria inata da criança a fazê-la escolher o caminho que a levará a realizar-se da melhor forma.
Há um belíssimo provérbio africano que diz: Para se educar uma criança, é preciso uma aldeia inteira.
E é mesmo assim, precisa-se da variedade e da diversidade das relações e, ao mesmo tempo, da coesão de uma comunidade que respeita e faz respeitar as suas leis.
Talvez seja por isso que a acanhada família mononuclear, apesar de todos os seus cuidados e subtilezas pedagógicas, gera, na maior parte dos casos, crianças eternas, capazes de conjugar até ao infinito um único e importuno verbo: “Eu quero”. E ninguém reparou – ou melhor, ninguém quis reparar – que, entretanto, o provérbio africano foi assumido a nível planetário. Só que já não é o conjunto dos parentes, ou seja, o contexto social feito de pessoas, rostos, histórias humanamente compreensíveis – que educa, mas a anónima e poderosíssima e subtilmente perversa aldeia global.
Perante a abulia educativa dos pais, perante a apatia da escola e a ausência de um grupo formativo, a comunidade educadora passa automaticamente a ser a que é constituída pelo rosto opaco dos mass media, da grande antena que domina e envolve os nossos dias com o seu constante grasnar.
E ela que nos diz no que devemos acreditar e o que devemos desprezar, o que escandaliza e o que, pelo contrário, deve merecer o nosso aplauso. É ela que nos impõe a certeza de que, sem a posse de alguns objectos determinados, resvalaremos para o grande mar dos zés-ninguéns. Como é natural, tudo acontece de uma forma democrática, desprovida de obrigações. Na verdade, para evitar rebeliões, temos de estar convencidos de que somos sempre nós – e só nós – que escolhemos.
Mas será mesmo assim?
Há uns dois anos atrás, houve duas raparigas filipinas que estiveram hospedadas em minha casa, em Roma. Andavam nos melhores liceus de Manila e, pela primeira vez na sua vida, tinham ido visitar os pais ao país para onde tinham emigrado há muitos anos, em busca de trabalho. Era uma viagem “instrutiva”, para elas perceberem quanto trabalho, quanta renúncia estava por detrás dos privilégios dos seus estudos em Manila. Todavia, instrução houve muito pouca. A estada de ambas foi uma frenética correria entre uma loja de telemóveis e outra de roupa desportiva. Sabiam dizer as marcas de cada objecto por ordem decrescente, de acordo com o valor de culto e o seu preço relativo, como se fosse o rosário ou as litanias dos santos. E, naturalmente, veneravam as mesmas marcas, os mesmos modelos que os nossos jovens idolatram. Nos intervalos das compras, esparramavam-se nos sofás da casa, suspirando, entediadas. Nunca sentiram vontade de perguntar fosse o que fosse, de olhar pela janela, nunca houve o desejo ou a ousadia de dar um passeio sem destino, para cheirar um perfume, observar um rosto, ver como as ruas de Roma são diferentes das ruas de Manila.
O que inquieta, nesses jovens planetários, é essa espécie de avidez idiota. Todas as forças estão direccionadas, concentradas no objecto do desejo. Uma vez adquirido, a mesma energia, cujo poder ficou intacto, desloca-se para outro objecto e depois para outro, numa corrida cujo fim não se consegue vislumbrar. A escolha terá sido sua, ou terão sido influenciados? E quem é que os fez acreditar que a vida é aniquilação da pessoa em função da posse? Quem levou os jovens de Brasília, Moscovo, Pequim, Sidney, ou San Diego a acreditar nisso? Quem os fez decidir que têm de possuir aqueles sapatos, aquele telemóvel que tira fotografias, aquele modelo de T-shirt?
A futilidade dos objectos, a sua insubordinação em relação à sua função original é o grande moloch destes tempos.
Essa perseguição obsessiva de frivolidades idolátricas lembra-me cada vez mais o comportamento dos lemingos, os pequenos roedores do Norte da Europa que, de repente e por motivos inexplicáveis, atravessam as charnecas a correr e lançam-se no mar, onde morrem. Essa perseguição do que é fútil projecta-nos constantemente num futuro imaginário, que não edifica. Suicidamo-nos diariamente, com o olhar extasiado do vitelo de ouro – os inúmeros vitelos de ouro baratos – e, entretanto, a nossa vida, com o seu mistério, com as suas perguntas, foge-nos das mãos, deixando-nos à mercê de manifestações incontroladas e alarmantes: inesperados ataques de pânico, suicídios insuspeitáveis, gestos de loucura de pessoas aparentemente normais que matam a família, sem saberem porquê.
Sempre considerei a diversidade como a maior riqueza do mundo. Cada flor, cada insecto, cada mamífero, cada mineral tem uma relação de reciprocidade com o mundo vivo.
Para os seres humanos, o discurso da diversidade também é fundamental. Cada um de nós nasce com uma atitude diferente – de sensibilidade, inteligência, cultura – e o objectivo da vida é justamente cultivar e compreender essa nossa peculiaridade, levando-a a dar os seus melhores frutos. O caminho do crescimento é portanto o da descoberta e da construção lenta do nosso rosto, da nossa história. Rosto e história que são únicos e irrepetíveis, mas complementam todos os rostos e todas as histórias que nos rodeiam.
A grande antena faz-nos correr atrás das sombras chinesas, convencendo-nos de que são a realidade. Empurra-nos constantemente para um sucesso mediático, efémero, que tem de ser constantemente confirmado, para não repararmos que somos, de facto, escravos das modas, dos pensamentos, da erosão homogeneizante da aldeia global.
A grande antena passa o tempo a falar de tolerância, mas bastar-nos-ia reflectir um pouco para percebermos que uma vontade que elimina a diversidade é a primeira geradora de intolerância.
A grande antena mostra-nos constantemente a beleza onde não há beleza. Na eterna juventude do corpo, na capacidade de gerar criaturas por encomenda, com o sexo que se pretende, a cor que se deseja, a inteligência que convém, na manipulação da vida, na posse e no domínio. A grande antena sacralizou os nossos direitos mais fúteis – os que têm a ver com a satisfação imediata e obstinada de qualquer desejo – roubando sacralidade à única coisa realmente sagrada: a unicidade da vida humana.
Susanna Tamaro
Cada Palavra é uma Semente
(texto com supressões)